No cravo e na ferradura

A derrota do Governo na eleição para a presidência da Câmara dos Deputados só pode agravar o relacionamento de Luiz Inácio Lula da Silva e a presidente Dilma Rousseff. No comando do governo, Lula não estaria imune a uma derrota. Poderia perder, sim. Mas não desta forma espetacular de todos os que querem distancia do PT e da chefia do país, leia-se Palácio do Planalto. Pode sobrar para o chefe da Casa Civil, ex-senador Aloísio Mercadante e outros possíveis batalhadores da última hora visando o deputado Eduardo Cunha. Lula saberia conduzir seus súditos, além de conversar com a cúpula do partido aliado, o PMDB, e o próprio candidato à presidência.

A presidente Dilma Rousseff vem passando por problemas sérios de ordem administrativa. Poucos falam, mas não é só o banditismo de assaltantes da Petrobras que está à mostra. Dilma foi ministra das Minas e Energia, presidente do Conselho da estatal ferida de morte. Pois está agora a presidente mostrando falta absoluta de habilidade para conduzir um processo eleitoral, levando o PT a uma derrota acachapante.

Liderando o PMDB, aliado governista, Eduardo Cunha vinha trabalhando abertamente há mais de ano pela sua candidatura à chefia da Câmara Federal. O governo ficou vendo a movimentação de Cunha e a persistência de um deputado capaz de se apresentar bem de liderar importante parcela da Casa e por fim, mesmo que atropelado pelo Planalto, a fazer 267 votos. Entretanto o ex-presidente Arlindo Chinaglia só alcançava 136 votos, Júlio Degaldo, do PSB de Minas Gerais obtinha 100 votos que, somados do presidente eleito, indica 367 votos contra o governo num colégio de 513 parlamentares.

O comando do legislativo federal está dividido entre o deputado do PMDB e o senador Renan Calheiros. A própria votação alcançada pelo senador Luiz Henrique, do PMDB de Santa Catarina, é motivo para a oposição festejar. Há tempo que não se via uma movimentação na Câmara Alta, denunciada pelo desafiante como superada pelos conchavos que vem tolhendo as iniciativas de um grupo importante de senadores em favor dos que obedecem a orientação de Renan.

Eduardo Cunha fez um discurso duro ao se apresentar para a votação. Denunciou o que entende como assédio indevido por parte do Executivo, uma postura antiga no relacionamento entre o que queriam os dois poderes. Mas tão logo venceu as eleições apresentou-se como capaz de conduzir os trabalhos e fazer uma política de boa vizinhança com o Planalto, entendendo que as diferenças ficaram sepultadas com a apuração dos votos que lhe deram a vitória.

Ao contrário do PT, o PMDB mais uma vez soube mostrar ao Governo e em particular à presidente Dilma que a política está na veia e que não é aceitável cerrar de cima. Ficam as mágoas, cobram-se desaforos com o voto secreto que, como dizia Tancredo Neves – no voto secreto dá uma vontade enorme de trair. Tivesse Dilma conversado com outras figuras do partido aliado, poderia ter evitado o que é considerado como a sua mais humilhante derrota desde que assumiu a presidência da Republica.

Certo que Lula manobrou bem com uma mulher para ser a sua sucessora. Evitou muitos marmanjos que lhe fariam sombra posteriormente. Talvez já não pense assim. São coisas da política. Que, aliás, podem isto sim é fortalecer a candidatura do próprio ex-presidente em 2018.

Ayrton Baptista, jornalista.

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