ARTIGO Cigarro: de símbolo do glamour a vilão / Por Jacir J. Venturi*

Ao descrever as agruras dos primeiros meses em que deixou o tabaco, o escritor João Ubaldo Ribeiro deu seu depoimento à revista Veja: “Desse jeito, na minha biografia estará escrito: ‘João Ubaldo Ribeiro, 55 anos, deixou tudo para se dedicar a largar do cigarro’”. Faleceu no ano passado, de embolia pulmonar, sem conseguir se livrar do vício da nicotina, embora tenha superado o alcoolismo 11 anos antes de morrer.

Quantas pessoas determinadas ou com mentes privilegiadas sucumbem, apesar do hercúleo esforço em largar o vício? “Parar de fumar é fácil. Já parei mais de 20 vezes”, ironizava Winston Churchill, reconhecido como o maior estadista do século 20.

Não há fumante que não se autopuna. O remorso dele é maior que os danos que causam suas baforadas. Sim, ele sabe que a melhor definição de cigarro é: fogo numa ponta e ele, o imbecil, na outra ponta. Sim, ele sabe que o cigarro lhe diz: hoje você me acende, amanhã eu te apago. Sabe que o cigarro não distrai, destrói. Ele sabe, ainda, que beijar um fumante é como lamber um cinzeiro.

O tabaco é um vício poderoso. Deixá-lo – segundo estudo publicado no New York Times – pode ser mais difícil que se livrar do álcool, anfetaminas, cocaína e até heroína. Contudo, como no término de um grande amor, fica um vazio. E se estabelece uma relação de encantamento ou ojeriza. Nunca mais a fumacinha que lhe chega às narinas será indiferente.

Passei muitos anos convivendo com um ritual prosaico: às 10 horas da manhã, um café e umas pitadas de Charm; após o almoço, mais um café e um Charm; no jantar, uma taça de vinho e… Até meu cardiologista fazia blague: “Três cigarros por dia? Você é o único paciente que sabe fumar”. Porém, um dia foi categórico: “Pare de vez! Na sua idade, o organismo já não suporta essa agressão”.

Após me separar dela – a nicotina, pois se parece com a dor da perda da mulher que se amou -, subjaz um desejo secreto: imitar a cena de um filme de bang-bang na qual o bandido sobe o cadafalso e o xerife faz a derradeira pergunta: “Seu último desejo, senhor?” “Sim, um Marlboro, por favor!”

Um professor com quem muito convivi e dividi o tablado de um curso pré-vestibular fazia troça: “Quero que conste em minha lápide: ‘aqui jaz fulano de tal, ex-fumante’”. E assim se consumou. O meu querido amigo fumou até o último dia, já com a perna amputada. Julgo que nas décadas de 70, 80 e 90 mais de metade dos mestres de cursinhos e faculdades soltavam suas baforadas em plena sala de aula. No fim das aulas, dezenas de guimbas se misturavam aos tocos de giz pelo chão. Hoje é insulto, vitupério, ofensa de lesa-majestade.

Há aproximadamente 20 anos iniciou-se a desconstrução do cigarro, pois até então fumar denotava status, glamour, masculinidade. Durante o governo FHC foram implementadas medidas e campanhas antitabagistas ousadas e bem-sucedidas – desde a proibição de propagandas nas tevês, rádios e jornais até a demonstração dos malefícios causados pelo cigarro à saúde, à estética pessoal, ao fumante passivo. Em decorrência, o número de fumantes caiu de 32% para 10,5% (em maio de 2015) da população brasileira, um dos menores índices do mundo. No início do banimento do cigarro, inúmeros atritos que geraram muito calor (embates); porém, na sequência, veio muita luz (a desglamourização).

A par dessa constatação tão alvissareira, médicos e nutricionistas alertam para um sucedâneo, já visivelmente um problema de saúde pública. O quê? Pó branco – não o que vem de pronto à mente, e sim o açúcar e farinhas refinadas. Há uma escalada exponencial no consumo desses produtos e, como consequência, várias enfermidades, protagonizadas pela obesidade e diabetes.

Jacir J. Venturi, professor, é coordenador da Universidade Positivo e autor de três livros.

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