Qual é a ligação entre a propagação explosiva do vírus Zika e as mudanças climáticas?

Um comitê de emergência da Organização Mundial da Saúde reuniu-se em Genebra nesta segunda (1/2) para planejar uma resposta a um surto de massa do vírus Zika, que pode se tornar uma pandemia segundo alertas da própria organização.  A OMS estimou que haverá 3 a 4 milhões de casos de Zika nas Américas ao longo dos próximos 12 meses.

Da mesma forma que a febre amarela e a dengue, o vírus é transmitido pelo mosquito Aedes aegypti. O vírus foi encontrado pela primeira vez na África, depois Ásia e Polinésia, mas recentemente se espalhou por 22 países das Américas e Caribe. As mudanças climáticas criam novas incertezas sobre a propagação de doenças transmitidas por mosquitos como Zika, o que eleva significativamente os riscos que enfrentamos. As mudanças climáticas alteram dramaticamente as condições que controlam a propagação do vírus, tais como índices locais de temperatura e chuvas. Isto significa que a propagação do vírus se torna imprevisível. Quando se trata de doenças como Zika, as mudanças climáticas são um multiplicador de ameaças.

Além do mais, nas últimas décadas, tem havido um enorme salto em viagens internacionais, impactando o potencial propagação do vírus. Um estudo publicado na revista de saúde The Lancet descreve como o vírus poderia se espalhar a partir do Brasil, o país mais afetado nas Américas. A pesquisa mapeou os destinos finais dos 9,9 milhões de turistas estrangeiros que visitaram áreas de risco no país: 65% se dirigiam para as Américas, 27% na Europa e 5% para a Ásia. Em alguns casos, as condições nos destinos domésticos desses turistas são adequadas para que o vírus venha a se desenvolver. Por exemplo, cerca de 60% da população nos EUA, Itália e Argentina – alguns dos países de origem mais populares para os turistas para o Brasil – vivem em áreas vulneráveis ​​à transmissão sazonal da doença, com condições climáticas e ambientais favoráveis ​​à proliferação do mosquito Aedes aegypti.

Nos EUA e na Austrália, alguns casos Zika já foram registrados em viajantes que regressam de zonas afectadas. O Centro para Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos emitiu alertas de viagem para 22 países nas Américas, especialmente para mulheres grávidas. Espera-se que em breve o vírus se espalhe por todas as Américas, com exceção das partes mais frias do Canadá e Chile.

A ligação entre o clima e a doença é complexa. Os cientistas descobriram que quando se trata do impacto das mudanças climáticas sobre a transmissão da doença, as evidências mais fortes são da ligação entre clima e doenças transmitidas por mosquitos. Além disso, a Organização Mundial de Saúde disse que o fenômeno climático El Niño – um aquecimento da área tropical central para leste do Oceano Pacífico, que está ocorrendo atualmente – é conhecido por resultar em inundações, fortes chuvas e aumento das temperaturas. Assim, um aumento de mosquitos pode ser esperado devido à expansão e melhora dos locais de reprodução. Mosquitos também pode se desenvolver em épocas de seca, quando as pessoas armazenam água em recipientes.

Os mosquitos Aedes aegypti se reproduzem mais rapidamente em climas úmidos e quentes. O Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas descobriu que a maior parte do Brasil – onde boa parte deste surto foi registrada – aqueceu mais do que a média global no século passado. O Nordeste, o Centro do país e algumas partes da Amazônia têm experimentado um amento da temperatura média entre 1.2oC e 1.6oC desde 1960, e o número de noites quentes cresceu. Noites frias podem ser a diferença entre o aumento ou não em uma nova geração de insetos.  Nos 10 anos até 2011, mais que triplicou a área de transmissão da febre da dengue no Brasil, a qual passou de 2 milhões de quilômetros quadrados para 7 milhões de quilômetros quadrados. E o número de pessoas em risco dobrou, de 80 para 160 milhões.

Embora em muitos casos o vírus Zika não provoque sintomas, ele tem sido associados a problemas congénitos quando contraído por mulheres grávidas. Também tem sido associado a doenças auto-imunes, tais como a síndrome de Guillain-Barre, que pode causar paralisia muscular e levar à morte. O nascimento de bebês com microcefalia no Brasil tem sido relacionado à epidemia de Zika. Bebês com microcefalia podem morrer no nascimento ou podem viver por muitos anos, mas têm problemas de desenvolvimento físico e mental.

Aspas:

“O Zika é o mais recente exemplo dos muitos vírus transmitidos por mosquitos que representam uma ameaça crescente para os seres humanos devido às condições mais quentes e úmidas associadas às mudanças climáticas.” – Fiona Armstrong, diretora executiva da Climate and Health Alliance.

“Precisamos encarar o fato de que forçar os limites da ecologia do planeta tornou-se algo perigoso de uma nova maneira. Nós estamos em uma emergência –  uma cuja aparência se transforma a cada semana em alguma calamidade nova e hedionda.” – Bill McKibben, fundador da 350.org, em um editorial do Guardian.

<rita@avivcomunicacao.com.br>

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.