A ameaça do Aedes Aegypti não está nos lixos das cidades

Jan Carlo Delorenzi

Gabrielle de Souza Mury

O Aedes aegypti se tornou uma das principais ameaças ao bem-estar das pessoas nos últimos tempos, sendo transmissor de doenças como Zika, Chikungunya, Dengue e Febre Amarela. Extremamente adaptado às áreas urbanas, onde a fêmea consegue facilmente se alimentar, o mosquito encontra muitos criadouros para depositar seus ovos justamente nessas localidades.

Após uma intensa campanha de extermínio, que objetivava reduzir os casos de Febre Amarela, o mosquito foi totalmente erradicado do Brasil no final da década de 1950. Entretanto, por conta do descaso e do fluxo de trânsito global, o Aedes foi reintroduzido no país, estando, atualmente, presente em todos os Estados – também pela grande capacidade de adaptação e facilidade de reprodução.

As principais doenças transmitidas pelo mosquito têm, em geral, manifestações clínicas muito semelhantes: o paciente apresenta febre, mal-estar, dores musculares e nas articulações e manchas vermelhas pelo corpo. Alguns sintomas podem ser mais marcantes em determinado vírus, como a dor articular e, até mesmo, a artrite (com edema, calor e eritema), no caso da Chikungunya, ou a suspeita de microcefalia associada à Zika, no primeiro trimestre da gestação. Porém, exatamente pela semelhança de seus sinais e sintomas, na maioria das vezes, não é possível fazer diagnósticos sem exames laboratoriais específicos.

Esse diagnóstico confirmatório não é essencial para definir o tratamento inicial, que é basicamente o mesmo para essas doenças: hidratação e medicamentos sintomáticos, como analgésicos e antitérmicos. No entanto, uma avaliação médica é fundamental para detectar precocemente sinais de gravidade e evitar ou minimizar possíveis complicações.

Os vírus Zika e Chykungunya têm apenas um sorotipo identificado até o momento, o que não permitiria a uma pessoa adoecer mais de uma vez. O vírus da Dengue, contudo, tem quatro sorotipos, o que significa que uma pessoa pode ter mais de um episódio.

O Ministério da Saúde busca esclarecer de maneira efetiva as principais dúvidas sobre as doenças, em seu site. O quadro abaixo é elaborado a partir das informações da Pasta:

 

DENGUE ZIKA CHIKUNGUNYA
A infecção por dengue pode ser assintomática, leve ou causar doença grave, levando à morte.

 

Normalmente, a primeira manifestação da dengue é a febre alta (39° a 40°C), de início abrupto, que geralmente dura de 2 a 7 dias, acompanhada de dor de cabeça, dores no corpo e articulações, prostração, fraqueza, dor atrás dos olhos, erupção e coceira na pele.

 

Perda de peso, náuseas e vômitos são comuns. Na fase febril inicial da doença pode ser difícil diferenciá-la.

 

A forma grave da doença inclui dor abdominal intensa e contínua, vômitos persistentes, sangramento de mucosas, entre outros sintomas.

 

Cerca de 80% das pessoas infectadas pelo vírus Zika não desenvolvem manifestações clínicas.

 

Os principais sintomas são dor de cabeça, febre baixa, dores leves nas articulações, manchas vermelhas na pele, coceira e vermelhidão nos olhos.

 

Outros sintomas menos frequentes são inchaço no corpo, dor de garganta, tosse e vômitos.

 

No geral, a evolução da doença é benigna e os sintomas desaparecem espontaneamente após 3 a 7 dias. No entanto, a dor nas articulações pode persistir por aproximadamente um mês.

Formas graves e atípicas são raras, mas quando ocorrem podem, excepcionalmente, evoluir para óbito, como identificado no mês de novembro de 2015, pela primeira vez na história.

Os principais sintomas são febre alta de início rápido, dores intensas nas articulações dos pés e mãos, além de dedos, tornozelos e pulsos. Pode ocorrer ainda dor de cabeça, dores nos músculos e manchas vermelhas na pele.

 

Os sintomas iniciam entre dois e doze dias após a picada do mosquito. O mosquito adquire o vírus CHIKV ao picar uma pessoa infectada, durante o período em que o vírus está presente no organismo infectado.

 

Cerca de 30% dos casos não apresentam sintomas.

Fonte: http://combateaedes.saude.gov.br/

Estamos vivenciando uma época de muitas dúvidas e poucas certezas. Como se não bastasse, boatos infundados se espalham, desviando o foco do que realmente importa e que está ao alcance de todos: a prevenção.

Todos nós já sabemos dos perigos de se deixar água acumulada. Qualquer objeto com água parada, ainda que inusitado, seja uma tampinha de garrafa ou uma folha caída no quintal, é um possível criadouro.

Outro tema é relativo ao acúmulo de lixo. Resíduos descartados de maneira inadequada são veículos de contaminação do ambiente e quando acumulam água podem servir de criadouro para o mosquito transmissor da Dengue. Isso ocorre, principalmente, nos chamados pontos viciados, locais onde as pessoas utilizam muros, esquinas e terrenos desocupados para colocar o lixo.

No que diz respeito ao lixo domiciliar, sua coleta na capital paulista tem frequência diária ou em dias alternados. Segundo o Instituto Oswaldo Cruz e a Secretaria de Saúde do Município de São Paulo, o ciclo de desenvolvimento do mosquito até a sua forma adulta ocorre em 10 dias. Assim, considerando a frequência da coleta e o ciclo reprodutivo do Aedes aegypti, a associação do descarte de lixo com a sua proliferação não é direta.

Como cidadãos, devemos cuidar do lixo para reduzir o impacto ambiental, separando o que é passível de reciclagem. No descarte, o material deve ser acondicionado em sacolas próprias, fechadas, e disposto no horário correto.

Na outra ponta, estão a coleta e a destinação. É imperativa uma ação eficiente do poder público na gestão desses dois serviços e da limpeza pública. Também é essencial que a prefeitura agilize a limpeza dos pontos viciados, com frequências similares às da coleta domiciliar, realizados diariamente ou a cada dois dias; um dos maiores problemas está em áreas particulares onde a coleta de lixo não pode entrar normalmente para pegar o material descartado.

No campo da prevenção, o uso de repelentes, independentemente da substância ativa (Icaridina, DEET ou IR3535), é eficaz e seguro, inclusive para gestantes e crianças acima de seis meses de idade, se respeitadas as orientações do fabricante quanto à faixa etária indicada e tempo de ação/ necessidade de reaplicação. É importante ressaltar que os doentes também devem usar repelentes. Em primeiro lugar, existe a possibilidade de a pessoa ser infectada por outro vírus. Além disso, esses indivíduos são os reservatórios para novos mosquitos, pois quando o Aedes pica um doente, suga o sangue e também os vírus que ali estão, infectando-se e, após alguns dias, tornando-se transmissor daquele vírus.

A Organização Mundial de Saúde e a Organização Pan-Americana de Saúde reconhecem a eliminação de criadouros do mosquito como a mais importante providência a ser tomada. E não adianta esperar que ações isoladas do governo ou do vizinho resolvam o problema. Todos temos de estar engajados nessa luta.

 

Gabrielle de Souza Mury – Médica Infectologista da Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto.

 Jan Carlo Delorenzi, PhD –  Farmacêutico, Mestre e Doutor em Ciência Biológicas (Biofísica). Professor de Imunologia e Saúde Pública – Universidade Presbiteriana Mackenzie. Investigador Sênior em Pesquisa Clínica. Líder do Grupo de Pesquisas em Saúde Pública da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Conferencista na área de Doenças Tropicais Negligenciadas

<regina@viveiros.com.br>

aedes_18022015

1 Comentário

  1. Aqui onde moro no Rio Grande do Sul, Novo Hamburgo divisa com São leopoldo tem bastante mosquito da dengue e já fui picada varias vezes e consegui pegar uns 4 e guardei apesar que não sei se eles carregam o virus,mas aqui é bem interior e tem varias vegetacões de agua parada e muito mato.

Faça um comentário

Seu e-mail não será divulgado.