Paramiloidose atinge mais pacientes em Portugal e no Brasil

Não está nada fácil a vida para os pacientes portadores de polineuropatia amiloidótica familiar (PAF), também conhecida como PAF. Faltam informações e condições mínimas para garantir o tratamento da doença, muitas vezes, incapacitante e responsável por provocar dores terríveis nos pacientes. Ocasionada por uma mutação genética e hereditária, que amplia as chances de casos em uma mesma família, a PAF é crônica e progressiva, manifestando-se em geral dos 25 aos 50 anos, ou seja, na idade mais produtiva do paciente. A doença é caracterizada pela produção de uma proteína anômala no fígado. Por causa de sua conformação “deformada”, essa proteína (a transtirretina) se deposita nos tecidos, podendo comprometer e afetar os nervos periféricos.

A mutação genética “ValMet30”, a mais comum que origina a doença e muito presente em Portugal, também atinge pacientes em outros países. Já se sabe, por exemplo, que filhos de portadores de paramiloidose têm 50% chance de portar a mutação e desenvolver a PAF. Estimativas já apontam que o Brasil pode ser o segundo país com maior número de pacientes atingidos após Portugal. A doença também é bastante detectada na Itália, Japão, Suécia, Ilha de Maiorca e Espanha. No Brasil, a peregrinação de pacientes que buscam por diagnóstico e, consequentemente, tratamento ainda é muito grande.

“É muito triste você saber que existe um medicamento que pode estabilizar uma doença que não tem cura, evitar as sequelas e aliviar os sintomas, mas que você não tem acesso a ele na rede. E mais desgastante é você ter que entrar na Justiça para conseguir um direito que a nossa Constituição garante”, desabafa Fábio Figueiredo, presidente da Associação Brasileira de Paramiloidose (ABPAR – www.paramiloidese.com.br).

Segundo Figueiredo, que também é portador de PAF, do diagnóstico ao tratamento existe um longo caminho a ser percorrido. Além disso, programas e políticas de governo que prometem normatizar todos os procedimentos acerca das doenças raras ainda engatinham. É o caso, por exemplo, dos Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas (PCDT), que vão ajudar os profissionais de saúde no atendimento aos portadores de doenças raras com ações de promoção, detecção precoce, diagnóstico, tratamentos cuidados paliativos e integrais.

Para se ter uma ideia, dos 47 protocolos a serem lançados pelo Ministério da Saúde, 12 eram previstos para serem publicados ao final de 2015, mas ainda não foram finalizados.  O protocolo que trata das diretrizes da PAF, por exemplo, só deve ser lançado no final de 2016.  “Tudo isso é muito importante porque o sucesso do tratamento vai depender do estágio em que a doença se encontra” explica a neurologista Laura Bannach Jardim, professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e do Serviço de Genética Médica do Hospital das Clínicas em Porto Alegre. “Daí a importância de um diagnóstico precoce, algo extremamente complicado pela condição de doença rara, já que muitos médicos desconhecem seus sintomas ou a viabilidade do seu diagnóstico”, complementa.

 

Sintomas

Os sintomas iniciais envolvem diminuição de sensibilidade e perturbações autonômicas. Esses sinais podem ser determinantes para apontar um diagnóstico preciso e precoce da PAF.

Sintomas como diminuição ou perda de sensibilidade à temperatura (frio/quente), formigamento ou dormência, dor intensa (como queimadura), começando nos pés e que, aos poucos, vão subindo para as coxas e para os membros superiores, podem sugerir outras doenças comuns. Um diagnóstico equivocado pode persistir por algum tempo – e é aí que mora o perigo, pois um diagnóstico equivocado atrasa em muito a descoberta da causa real, a PAF.

Perturbações autonômicas acontecem às vezes mesmo antes das alterações sensitivas, e incluem disfunção erétil e alterações gastrointestinais (diarreia incontrolável, constipação, náuseas e vômitos) e da visão — comprometimento das funções cardíacas e renais e emagrecimento acentuado.

Na medida em que o tempo passa, alterações dos nervos periféricos motores também acontecem. Aos poucos, os músculos afetados vão perdendo sua massa muscular, desenvolvendo uma grande atrofia e perda de força, que leva à dificuldade em caminhar e em utilizar as mãos. Todas essas complicações levam a uma sobrevida reduzida, da ordem  de 10 anos após o início dos sintomas.

 

Tratamento

O transplante de fígado é considerado padrão ouro no tratamento da paramiloidose. Aproximadamente 90% da proteína anômala, causadora da doença, é produzida no fígado. O transplante aumenta consideravelmente a sobrevida dos pacientes, desde que o diagnóstico seja realizado precocemente.

 

Novos medicamentos

Nas últimas décadas, começaram a ser estudadas novas formas terapêuticas para a PAF, como a estabilização da TTR, inibição da produção da TTR, destruição das fibras amilóides insolúveis e inibição de sua agregação. Entre os medicamentos recentemente aprovados para tratamento da PAF, o primeiro foi o Tafamidis (nome comercial Vyndagel), autorizado para uso na Europa desde 2011. É uma substância estabilizadora da TTR circulante (mutada) e eficaz para inibir e destruir as fibras de proteínas que se acumulam impedindo a progressão da doença. O seu uso está associado a uma redução da velocidade de progressão da doença

Esse medicamento não é produzido no Brasil e isso acaba dificultando o acesso dos portadores já que também não está disponível nas redes públicas de saúde. Muitos pacientes têm conseguido na Justiça o acesso grátis ao medicamento.

Um segundo medicamento demonstrou ter eficácia contra a PAF: o diflunisal . Trata-se de um anti-inflamatório não esteroidal, derivado da aspirina e usado desde os anos 70 em mais de 40 países para doenças inflamatórias. Estudos recentes com diflunisal demonstraram o seu sucesso na inibição da liberação de monômeros de TTR necessários à amiloidogênese. Ele foi bem tolerado e apresentou efeitos clínicos e de qualidade de vida satisfatórios em até 2 anos de tratamento.

O diflunisal  é um medicamento barato e já foi comercializado no Brasil durante alguns anos, mas deixou de sê-lo anos atrás, talvez por razões de mercado.

Autorizado para uso na Europa desde 2011, e  liberado para comercialização no Japão, México e Argentina, o Tafamidisainda não tem registro no Brasil, portanto não é fornecido gratuitamente pelo SUS.

Sem condições financeiras para importar um desses dois medicamentos, Tafamidis ou Diflunisal, o portador de PAF que precisar deles – seja porque não pode, não deseja ou aguarda por muito tempo o transplante hepático – é conseguir o tratamento na Justiça.

 

Fonte: Agência de Notícias Muitos Somos Raros

Car(a)  jornalista, este conteúdo é produzido pela Agência de Notícias Muitos Somos Raros, um projeto em parceria com a Associação Brasileira de Genética Médica e a Associação Brasileira de MPS (APMPS). O conteúdo pode ser reproduzido em jornais, revistas, portais e demais meios de comunicação desde que citada a fonte Muitos Somos Raros.

<danilo@tinocomunicacao.com.br>

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