Lábio leporino tem incidência maior do que câncer infantil

Um sorriso perfeito é aquele branco e com dentes perfilados, certo? Não. Na verdade, pode ser muito mais que isso. Ele pode representar superação e uma nova vida. O impacto positivo alcança não somente os beneficiados, mas também os profissionais que oferecem o novo sorriso, especialmente aqueles engajados na reabilitação biopsicossocial de pacientes portadores de fissuras labiopalatinas, mais conhecido como lábio leporino.

Conforme dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), uma em cada 650 crianças no Brasil nasce com a deformação, cuja causa ainda não foi definida. As pesquisas sugerem vários fatores que predispõem a situação, como genética, uso de medicação ou circunstâncias adversas na formação do bebê durante a gravidez, deficiências nutricionais, álcool, fumo e até mesmo radiação.

Caso não seja tratada, as complicações e sequelas da fissura lábio-palatina incluem problemas na fala, alimentares, respiratórios e de socialização. Para esses pacientes, sorrir é uma vitória alcançada após diversas intervenções cirúrgicas e apoio multiprofissional. A coordenadora do Centro de Reabilitação de Fissuras Lábio-Palatina (Cerfis) ligado ao Hospital Materno Infantil (HMI), Flávia Aline, explica que o fechamento da fenda labial melhora a estética enquanto a cirurgia do palato oferece conforto para alinhamento e viabiliza a adequação da fala. Por isso, o ideal é iniciar o tratamento precoce. Mas, de acordo com a coordenadora, “alguns chegam já na fase adulta sem terem feito as cirurgias primárias, inclusive, o tratamento não varia muito em relação ao das crianças.”, destaca Flávia Aline.

Reparação – Causada por uma má formação congênita no terceiro ou quarto mês de gestação, a fissura labiopalatal é caracterizada por uma abertura na região do lábio e/ou palato, ocasionada pelo não fechamento destas estruturas. Junto com a esperança de recuperação visual de parte do rosto, os pacientes depositam nos profissionais a esperança de serem aceitos pela sociedade, marcada por preconceito e olhares de curiosidade à deformidade.

“A questão estética é gravíssima. Funcionalmente e socialmente é ainda mais. Eles não conseguem se comunicar e se escondem. É muito ruim e há o bullying. Quando adultos, fica difícil para conseguir emprego, por exemplo. Como atender um telefone ou ensinar o filho a falar?”, aponta o cirurgião plástico do Cerfis, Reinaldo Carvalho. A maestria do conhecimento e das mãos é decisiva para deixar a cicatriz imperceptível ou, ao menos, pouco aparente.

De acordo com o especialista, se o paciente apresentar uma fissura no lábio, a cirurgia é realizada aos três meses de vida da criança e no retorno é operado o palato. Caso a fissura seja bilateral, o médico opera de um lado e quatro meses depois, a outra fenda. “Essa é uma técnica nova criada por um brasileiro e é mais conveniente, tecnicamente falando”, explica o cirurgião plástico. O palato é alvo de intervenção somente a partir de um ano de idade do paciente devido ao crescimento da face, e nunca após os dois anos de idade.

O primeiro passo logo após o nascimento costuma ser o seguinte: o pediatra encaminha o bebê ao cirurgião plástico e à fonoaudióloga, que orientará a mãe sobre como alimentar o filho pelo fato de a abertura no céu da boca da criança impedi-lo de sugar o peito. Em seguida, o bebê é submetido à chamada queiloplastia, nome técnico para a primeira cirurgia de fechamento do lábio.

Recuperado, o pequeno paciente com céu da boca fissurado segue para acompanhamento fonoaudiólogo para que comece a falar e receba ainda atenção de um ortodontista que, com o passar do tempo, conduz o crescimento prejudicado dos maxilares com o uso de aparelhos ortopédicos e posteriormente ortodônticos. Além dessas cirurgias, há ainda o enxerto ósseo aos oito anos, que recoloca osso no local em que havia a fenda, facilitando a erupção dos caninos permanentes. Os adultos que têm o crescimento da maxila e mandíbula muito desproporcionais devem receber ainda a cirurgia ortogática – esta propicia o refinamento da face -, entre os 18 e 21 anos de idade.

Assistência integral –  Por se tratar de um tratamento longo e caro, a busca pela instituição é grande. Unidade pública de saúde, o Cerfis tem mais de cinco mil pacientes de Goiás e de outros estados cadastrados. Os levantamentos epidemiológicos realizados no Cerfis demonstram que 78% dos pacientes atendidos no Centro de Reabilitação são de Goiás e 22% de outros estados. A faixa etária predominante de pacientes atendidos no Centro é de até 12 anos.

No local são realizadas, em média, 12 cirurgias plásticas reparadoras durante o mês sendo todas executadas no HMI, com exceção dos pacientes adultos do gênero masculino, que não atendem ao perfil do hospital. O Cerfis conta com especialistas qualificados para atender e acompanhar os portadores da deformidade que compromete o lábio superior, a arcada dentária e o céu da boca, e dificulta a respiração e a mastigação. O tratamento ortodôntico, que se estende da infância à fase adulta, conta hoje com mais de 600 pacientes em fase de tratamento ativo.

O Cerfis atualmente conta com uma equipe multiprofissional formada por três cirurgiões plásticos, uma fonoaudióloga e onze dentistas, sendo um cirurgião bucomaxilofacial, cinco ortodontistas, dois clínicos gerais, uma odontopediatra, uma protesista e uma periodontista, além de quatro técnicas em saúde bucal e uma auxiliar em saúde bucal.

Como ser atendido – Há duas formas para buscar por atendimento no Cerfis. Os pacientes de Goiânia devem procurar uma unidade de saúde próxima de casa e pedir encaminhamento. Já pacientes de outros municípios e estados devem ir até a secretaria municipal da sua cidade e pedir o agendamento.

Todo o tratamento é realizado no Cerfis. Não existe outro centro em Goiânia e nem na região Centro-Oeste especializado neste tipo de deformidade. “Quando não temos conhecimento da patologia do paciente, como no caso de uma síndrome avançada ou muito complexa, nós encaminhamos para Bauru ou Campinas, ambas no estado de São Paulo. Especificamente em Campinas, os pacientes são atendidos na Sociedade Brasileira de Pesquisa e Assistência para Reabilitação Craniofacial (SOBRAPAR)”, informa o cirurgião plástico Reinaldo Carvalho.

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Foto – Em bebês, o tratamento de fissura labiopalatina começa com o fechamento do lábio e segue até os 18 anos de idade, quando ocorre o fim do desenvolvimento facial

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