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Era uma vez uma Oficina de Música de Curitiba

Péricles Varella Gomes*

Janeiro de 1983… Após cinco anos de uma lacuna triste, Curitiba voltava a ter o seu “Festival” de música novamente! Para mim, o timing foi providencial, pois havia participado como adolescente das 2 últimas edições dos Festivais Internacionais de Curitiba, promovidos pela Pró-Música de Curitiba e apoiados pelo Governo do Paraná (direção do maestro Schnorrenberg). Em 1983, recém-formado, foi ótimo ter o mês de janeiro para estudar música novamente. A importância para mim destes eventos, como pessoa, artista e professor, foi incalculável, refletindo agora neste artigo. A propósito, tanto a Camerata de Curitiba como a Orquestra Sinfônica do Paraná foram frutos destes festivais.

Estes festivais me ensinaram que férias não são momentos de “esquecer de aprender”, mas de diversificar a formação, como também da disciplina, estudo e prática diária. Lições de vida que a música (e o esporte) oferecem ao jovem em formação. Foi também nesta primeira Oficina de Música que 6  jovens curitibanos foram recrutados e contratados  para a recém-criada Orquestra Sinfônica da Bahia (eu inclusive, como violoncelista).

No cenário cultural pobre do Brasil, festivais bem gerenciados podem exercer papel fundamental para a saúde das comunidades onde acontecem. Não apenas a saúde cultural, mas também a saúde mental de milhares de pessoas. Musicoterapia é um exemplo do vasto campo da utilização dos sons para a melhoria da saúde das pessoas e das cidades.

O que festivais devem ser? Eventos com foco educacional, workshops dinâmicos e concertos didáticos com preços acessíveis ou gratuitos. Estes concertos devem manter qualidade artística, mas serem ofertados em espaços urbanos diversificados (inclusive hospitais, asilos e creches, além de praças e auditórios). Festivais precisam utilizar ao máximo mecanismos de incentivo cultural e evitar tornarem-se vulneráveis em épocas de mudanças politicas. O que festivais não devem ser? Eventos elitizados, com repertório de aceitação duvidosa, com artistas caros e recorrentes, com aulas de instrumentos extintos ou em via de extinção. Estes devem também priorizar os habitantes locais nas suas inscrições. Já testemunhei grandes desperdícios deste tipo no Brasil.

Em 1993 (já como professor da Michigan State University) realizei durante a Oficina de Curitiba, talvez o primeiro curso de música e computadores (MIDI) no Brasil. Vejo hoje com admiração que estes cursos alcançaram grande magnitude e popularidade. Vale lembrar a vocação de Curitiba na questão da indústria do turismo. Esta, sem duvida, é voltada para o turismo de eventos, inclusive os de natureza cultural.

A Oficina de Curitiba pode ser mais barata? Sim. A Oficina pode ser mais eficiente e eficaz? Sim. A Oficina pode deixar de existir? Não! Caro amigo, prefeito Rafael Greca de Macedo: meu voto foi seu. Eu acreditava (e quero continuar acreditando) em sua capacidade como homem publico, de saber da importância da música na formação de uma sociedade mais justa e equilibrada. Por favor, devolva para Curitiba, tão logo possível, a nossa Oficina de Música de Curitiba. A cidade agradece.

*Péricles Varella Gomes é professor da PUCPR e da Universidade Positivo. PhD em educação pela Michigan State University. Fundador da Orquestra Sinfônica do Paraná.

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