O impacto da amostra de medicamentos na prática médica

Representantes de laboratórios farmacêuticos visitam médicos para divulgar medicamentos, e a prática de recebê-los é pouco questionada. Os médicos argumentam que as amostras de medicamentos recebidas aumentam o acesso dos pacientes a tratamentos e as visitas ajudam na atualização médica, e parecem não ver problemas na prática. Deveriam?

Uma pesquisa mostrou que 61% dos médicos entrevistados acredita que o contato com representantes não influencia a sua prática, mas apenas 16% pensam o mesmo em relação a outros médicos, sugerindo que boa parte destes profissionais enxerga essa influência, mas se vê blindada contra ela. Pura ilusão: outra pesquisa mostrou que em alguns cenários mais de 90% das prescrições não foram de drogas de escolha dos médicos, mas sim de amostras de laboratórios, e o principal argumento utilizado foi “reduzir os custos para o paciente”.

Como temos cada vez mais doenças crônicas que demandam medicamentos de uso continuado, o retorno atrai investimentos: nos EUA, em 2001, o valor investido em marketing pelas maiores empresas correspondia a 30% do faturamento, enquanto apenas 12% deste eram investidos em pesquisas. O montante investido nessas ações era de US$ 30 bilhões em 2005, sendo 84% em promoção de medicamentos (incluindo suas amostras).

Os representantes usam amostras de medicamentos como estratégia principal para promover seu uso, se aproveitando da formação médica insuficiente e da dificuldade do acesso a medicamentos. Esta ação é pouco discutida pelas leis e normas que regem a profissão médica: o Código de Ética do Conselho Federal de Medicina (CFM) diz apenas que é vedado ao médico exercer a profissão com “interação ou dependência de indústria farmacêutica”, sem qualquer detalhamento do que significa esta interação.

É preocupante como poucos médicos percebem o poder da influência desta relação com a indústria e por isso não discutem o assunto mais a fundo. Representantes de laboratório não são fontes confiáveis de atualização para médicos pois fornecem apenas os dados (e as amostras de medicamentos) que interessam às suas empresas, não os que interessam a nós e aos nossos pacientes. Médicos que se submetem a essa estratégia de marketing assumem o risco de prejudicar seus pacientes, e da pior maneira possível: com a crença de que estão ajudando.

Por Rodrigo Lima, diretor de comunicação da Sociedade Brasileira de Medicina de Família

 

anadangelis@rspress.com.br

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