Hospitais Brasileiros se preparam para combater as bactérias multirresistentes

Entre os dias 29 de junho e 1° de julho, profissionais da saúde se reúnem no Hospital do Coração (HCor), em São Paulo, para o curso “Antimicrobial Stewardship Program (AMS)”, que tem como objetivo promover o uso consciente de antibióticos para diminuir a resistência bacteriana. Realizado em parceria com a MSD, o evento contará com representantes de hospitais de todo o país que pretendem implementar o projeto de gerenciamento de uso de antimicrobianos em suas instituições, de acordo com as necessidades locais.

A questão das bactérias multirresistentes tem se agravado progressivamente. Dados divulgados pela Organização Mundial da saúde (OMS) revelam que até 2050, bactérias e outros organismos resistentes, poderão matar anualmente 10 milhões de pessoas no mundo, número maior que a mortalidade por câncer, que até lá, atingirá cerca de 8,2 milhões de pessoas ao ano[1].

“A grande questão é que as bactérias estão, cada vez mais, se tornando resistentes aos tratamentos disponíveis no mercado e, a descoberta de novas terapias não cresce na mesma proporção. Se não mudarmos nossos paradigmas agora, em alguns anos, teremos dificuldade no combate às infecções comuns como pneumonia e infecções urinárias, tanto dentro quanto fora dos hospitais”, explica o Dr. Pedro Mathiasi, médico infectologista que coordenou a implementação do projeto no Hospital do Coração (HCor).

Para conter e evitar a evolução de algumas infecções por bactérias é muito comum os médicos receitarem inicialmente tratamentos mais potentes e com amplo espectro (quando combatem diversos tipos de bactérias). “Nem sempre é necessário um remédio tão forte. É como se déssemos um tiro de canhão em uma pulga, o que pode gerar resistência àquela terapia no futuro”, explica Mathiasi.

De acordo o Dr. Sérgio Cimerman, Presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, o AMS surge como alternativa para aumentar a sobrevida de antibióticos existentes e diminuir as chances de resistência bacteriana a esses medicamentos no futuro.

“A implementação desse projeto nos hospitais brasileiros é de suma importância, uma vez que será possível mapear o tipo de bactéria que circula em cada ambiente, proporcionando tratamento adequado e cura efetiva aos pacientes, além da consequente diminuição da resistência aos antibióticos existentes no mercado”, pondera Sérgio.

Entre 2014 e 2016, o projeto Antimicrobial Stewardship Program da MSD foi realizado em 110 hospitais ao redor do país. O HCor, foi um dos pioneiros na implementação deste projeto em hospitais privados. Até o final de 2017, espera-se que 250 instituições sejam impactadas.

 

Controle de infecções bacterianas no HCor, um projeto que deu certo

A ideia de implementar a iniciativa no HCor surgiu em 2013, quando a convite da MSD – empresa que tem reunido esforços para promover o programa no Brasil -, diversos médicos, de diferentes hospitais, foram até a Colômbia conhecer o AMS.

O projeto tem como objetivo conscientizar profissionais de saúde e a população em geral sobre o uso racional de antibióticos, dado que o uso indiscriminado é uma das razões pelas quais as bactérias acabam criando resistência aos tratamentos.

“A ideia é munir médicos e gestores de saúde com informações a respeito da importância de mapear a resistência bacteriana presente no ambiente hospitalar para, assim, definir o melhor antibiótico para cada situação, diminuindo as chances de resistência e a proliferação das chamadas superbactérias”, explica Clarice Sztajnbok, diretora médica da MSD.

Ao voltar para o Brasil, o HCor resolveu colocar o projeto em prática. Para isso, contou com apoio da liderança e com uma equipe multidisciplinar. “Criamos protocolos que podem ser utilizados no futuro. A ideia não é restringir, mas reeducar os profissionais para que façam o uso consciente dessas substâncias”, esclarece o Dr. Pedro Mathiasi.

Durante o levantamento inicial, os pesquisadores perceberam que 54% dos pacientes internados utilizavam antibióticos. Desses, 70% eram adultos e 30% crianças. Três anos após a implementação do AMS, já é possível verificar os resultados positivos. Na UTI, o uso de antibióticos diminuiu entre 15% e 25% dos casos. Já a redução global dos antifúngicos foi de 25%.

Os grandes impactos ficaram na UTI pediátrica que conseguiu reduzir o uso de antibióticos e antifúngicos em 57% e 60% respectivamente. Já os índices de diarreia bacteriana diminuíram em 55%.

“Mapear qual tipo de organismo está presente no hospital é fundamental para o sucesso do programa. As bactérias presentes no HCor não são necessariamente as mesmas existentes em outras instituições. Uma vez que traçamos o perfil de resistência de uma bactéria, podemos oferecer tratamento customizado para cada paciente e evitar que ele tome doses desnecessárias de medicamentos”, conclui o infectologista.

Um dos reforços da farmacêutica na implementação do programa de Antimicrobial Stewardship é a campanhaAntibiótico: Faz bem usar bem, que visa estabelecer protocolos incentivando o uso consciente de antibióticos, além de alertar a população em geral sobre a questão.

(saude1@ketchum.com.br)