Meu corpo não é público

No dia 29, uma jovem trafegava pela Avenida Paulista quando foi atingida pela ejaculação de um agressor que se masturbava no ônibus. Pouco mais de 24 horas depois, na mesma via, outro agressor foi preso em flagrante após esfregar as mãos nos seios de uma mulher. No dia seguinte, um homem foi detido após ejacular na perna de passageira dentro do BRT, no Rio.

O projeto “chega de fiu-fiu” disponibiliza um site que mapeia os lugares mais incômodos e perigosos para mulheres no Brasil. Ao lançar a Cidade do Rio, nós deparamos com uma mancha de pontos azuis indicando ameaça por todos os lados.

Em pesquisa realizada pelo Instituto YouGov em maio de 2016, todas repetimos, todas as estudantes entrevistadas afirmaram que já foram assediadas em suas cidades. Metade das mulheres disse que já foi seguida nas ruas, e 44% tiveram seus corpos tocados. Questionadas sobre as situações em que sentiram mais medo de sofrer assédio, 68% delas indicaram logo o transporte público.

Nesse sentido, para além da discussão no âmbito da punição dos agressores, está a evidente estrutura patriarcal e machista reproduzida em nossa sociedade, revelada pelo transporte coletivo em mais uma face diária de violência e abuso. As mulheres são agredidas em casa, no trabalho, nas escolas, nas faculdades e no caminho para todos esses lugares todos os dias.

Se não há dúvidas quanto aos estorvos diários a que a população é exposta em sistemas de transportes caros, ineficientes e inseguros, são as mulheres ainda mais atacadas em mais um espaço de constante violação de seus corpos.

É urgente que essa discussão alce voo ao debate sobre a objetificação de nossos corpos, principalmente da mulher negra, sobre a superlotação dos coletivos, a falta de planejamento urbano com a implementação de verdadeiros transportes de massa e a carência absoluta de políticas públicas de ocupação dos espaços comuns da cidade por todos e todas.

Afinal, são as piadas aceitas, os assédios diários e representação das mulheres como objetos e de forma estereotipada, que dão base e catapultam a cultura do estupro, culminando na violência sexual e o feminicídio. E chega.

João Tancredo é advogado e Maria Isabel Tancredo é acadêmica em Direito