Médicos empreendedores criam plataforma educacional digital 

Os médicos Ricardo Villas-Bôas, Carlos Loyola e Fernando Weiss

Inicialmente o foco do EnsinoMed será em cursos de perícias médica, um vasto campo de trabalho com remuneração, em média, duas vezes maior do que a maioria das cirurgias de baixa e média complexidade 

Uma boa dose de senso de oportunidade e de empreendedorismo levou três médicos curitibanos a investir aproximadamente R$ 1 milhão na criação de uma plataforma educacional online voltada, em sua primeira fase, à área da perícia judicial, um campo da medicina estratégico que apresenta uma remuneração duas vezes maior do que a maioria das cirurgias de baixa e média complexidade.

Segundo o ortopedista Fernando Weiss, um dos idealizadores, a demanda por médicos capacitados na realização de perícias é extremamente alta há alguns anos. “Nos últimos meses ainda observamos o cancelamento de aproximadamente 180 mil benefícios do INSS, na operação ‘Pente Fino’, então boa parte desse contingente deve ingressar na justiça pedindo uma reavaliação e, nestes casos, sempre é necessária uma perícia médica”, pontua. Segundo ele, uma perícia gera uma receita ao médico, dependendo da complexidade do caso, de até R$ 3.000,00.

Oportunidade

As pós-graduações tradicionais na área de perícias judiciais são, por imposição do Ministério da Educação (MEC), morosas e o programa nem sempre é totalmente voltado à vivência prática que um profissional dedicado às perícias necessita. “O tempo de um médico é muito escasso e os custos para fazer uma pós-graduação tradicional são altos e envolvem, geralmente, viagens, hospedagem e sem falar no tempo que o profissional precisa se dedicar”, enfatiza Weiss.

“Tendo em vista todo esse cenário e as facilidades da realização de cursos livres por meio de EAD resolvemos criar o EnsinoMed”, afirma o especialista em Medicina do Trabalho, Ricardo Villas-Bôas. Segundo ele, a plataforma educacional auxiliará em diversos aspectos muito interessantes, pois não há necessidade de deslocamento para qualquer centro, o custo é muito mais baixo e o tempo de duração do curso também é um diferencial. “Teremos apenas aspectos práticos, sem conteúdos que não agregam ao profissional, de maneira bem didática e de fácil entendimento, extremamente focados no que é necessário para realizar a perícia”, adianta.

Primeira fase

De acordo com Weiss, a plataforma — na primeira fase — não ficará restrita a área da saúde e poderá ter cursos quem envolvam outras interfaces da perícia como, por exemplo, a área jurídica e também da engenharia. “Abriremos espaço para parcerias com quem tenha proposta de cursos inovadores e dinâmicos, com um bom conteúdo técnico e prático”, adianta. “Seremos uma alternativa às instituições formais, oferecendo aquilo que o mercado realmente precisa”, afirma.

Marketplace

Ainda segundo Weiss, a segunda fase da plataforma, que está planejada para ocorrer em 2018, prevê a transformação em um verdadeiro marketplace de cursos na área da saúde. “Com o investimento, principalmente, de tempo para desenvolver o EnsinoMed conseguimos um certo knowhow que queremos aproveitar ao máximo para potencializá-lo ainda mais “, adianta.

Cenário EAD X público alvo

Os cursos em Educação à Distância (EAD) já representam mais de 26% do Ensino Superior no país e a estimativa é a de que a modalidade, até 2023, já represente 51% do número de matrículas. Somado a esse fator, o médico psiquiatra Carlos Loyola explica que, segundo dados do Censo EAD, de 2014 para 2015 o número de matrículas em cursos livres cresceu 37%. “Essa estimativa nos aponta que em 2015 já tínhamos mais de 432 mil médicos no país. Enquanto outra pesquisa, de 2014, aponta que 41% dos médicos não têm título de especialista”, pondera.

Cenário mostra um mercado saturado no futuro

O Ministério da Educação (MEC) acaba de divulgar a liberação para a abertura de novos 11 cursos de medicina no país. Segundo Fernando Weiss, a quantidade de cursos já é grande e o que se desenha para o futuro da profissão é o que podemos ver hoje com, por exemplo, os advogados. “Com o grande número de médicos formados no Brasil, em alguns anos, nos dá margem a dizer que estes terão que se submeter a más condições de trabalho e a uma remuneração cada vez menor”, explica. “Não temos falta de médicos em nosso país, mas a falta de condições para o médico trabalhar. Condição que, infelizmente, poderá piorar em breve”, destaca.

“Certamente em um futuro próximo o médico precisará ter outros campos para atuar”, frisa o especialista, que há cinco anos deixou de clinicar para se dedicar exclusivamente às perícias. De acordo com ele, os planos de saúde, por exemplo, pagam cerca de R$500 por uma cirurgia de artroscopia do joelho e dentro esse valor está a consulta, o pré-operatório, a cirurgia propriamente dita e o pós-operatório. “É muito pouco. Quantas cirurgias esse médico precisa fazer no mês? E se tiver problemas em uma delas que gere um processo judicial no qual ele tenha que indenizar o paciente em R$50 mil? Infelizmente as contas não fecham”, explica.