A revolução que mudaria o mundo criou uma pilha de cadáveres

Ricardo Vélez Rodríguez*

 

Um século. Mais de 100 milhões de mortos pelo mundo afora em nome da Revolução que prometia mudar a face da Terra. Purgas sangrentas no país de origem, a Rússia, efetivadas sem dó pelos herdeiros bolcheviques do antigo império dos czares. Esperança de libertação que, à semelhança da Revolução Francesa, passou a se espalhar pelo mundo como estrela de esperança, mas que terminou, após 70 anos de domínio totalitário sobre a sociedade, desabando como castelo de cartas. Não foi disparado um tiro no grande movimento insurrecional que em 1989 percorreu o império soviético, dando fim a um modelo de poder unipessoal que pretendeu se tornar eterno. O império bolchevique morreu de dentro para fora.

Uma das notas dessa revolução foi a determinação inabalável dos seus líderes, notadamente de Lenin. “Temos diante de nós”, frisava o líder dos bolcheviques em dezembro de 1900, no primeiro número do panfleto Faísca, “a força inimiga em toda a sua plenitude, atacando e eliminando os nossos melhores elementos. Nós devemos tomar este poder e nós o tomaremos”. Foi exatamente o que aconteceu 17 anos depois.

Para Alexis de Tocqueville, a Revolução Francesa ficou marcada na memória da humanidade porque se apresentou como uma “revolução religiosa” que prometia mudar a natureza humana. Se tivesse assistido à Revolução de Outubro de 1917, Tocqueville aplicaria a esta as mesmas palavras com que se referiu ao caráter salvífico da Revolução Francesa. Ambas, afinal de contas, eram filhas da Religião Civil rousseauniana.

O império czarista, ao longo dos três séculos de duração da dinastia Románov, se revelou como uma grande máquina expansionista. Simon Sebag Montefiore, em Os Románov – 1613-1918, escreve: “Era difícil ser czar. A Rússia não é um país fácil de governar. Vinte soberanos da dinastia dos Romanov reinaram por 304 anos, de 1613 até a derrubada do regime czarista pela Revolução de 1917. Sua ascensão começou no reinado de Ivan, o Terrível, e terminou na época de Rasputin. (…). Estima-se que o Império Russo aumentou cerca de 140 quilômetros por dia depois que os Románov chegaram ao trono, em 1613, ou mais de 520 mil quilômetros quadrados por ano. No final do século 19, eles governavam um sexto da superfície da Terra – e continuavam em expansão. A construção de impérios estava no sangue dos Románov”.

A Rússia, como lembrou Antônio Paim em A querela do estatismo, recebeu uma dupla herança do denominado “despotismo asiático”: a proveniente de Bizâncio e a decorrente da dominação mongólica. Disso resulta uma circunstância que em geral se perde de vista: a concentração do poder total em mãos da burocracia czarista.

Os bolcheviques derrubaram o czarismo e o substituíram por um regime totalitário. Implantaram a “ditadura do proletariado”, a fim de estabelecer o regime que redimiria todos das injustiças: o comunismo. Mas o que de fato ocorreu foi a implantação, pelos revolucionários sob a liderança de Lenin e Trotski, da ditadura do aparelho revolucionário sobre os proletários russos e sobre o resto da antiga sociedade czarista. Esse primeiro passo foi reforçado pela longa e sanguinolenta ditadura stalinista.

Marx não acreditava na implantação do socialismo pela via democrática das eleições e dos partidos ligados aos sindicatos. Enquanto na Alemanha e nos demais países da Europa apareciam formas variadas de social-democracia (e a maior contribuição nesse terreno foi dada, na Alemanha, por Edward Bernstein), firmava-se na União Soviética uma forma de totalitarismo e se consolidava, como frisou Milovan Djilas (citado também por Paim em Marxismo e descendência), o domínio totalitário de uma “nova classe”, a dos burocratas do Partido Comunista ao redor dos seus líderes.

Lenin elaborou a proposta de passagem do autocratismo russo para o totalitarismo comunista. Stalin consolidou essa passagem, mediante a utilização da máquina do Estado para exterminar qualquer oposição e para converter a indústria russa numa espetacular máquina de guerra. O trabalho preliminar de Lenin consistiu em aplainar o caminho para a pregação do marxismo ao povo russo, traduzindo os conceitos complexos do hegelianismo em fórmulas práticas. O pai de Lenin tinha sido professor primário e conselheiro do czar para assuntos ligados aos camponeses. Quando saiu da longa prisão a que o governo czarista o condenou em Samara, Lenin assumiu as funções de pedagogo da revolução.

A doença da Revolução de 1917, como das demais revoluções comunistas do século 20, consistiu no primado do bem particular da Nomenklatura sobre o resto. Lenin deixou claro o tipo de república almejada pela Revolução, quando fixou duas coisas: em primeiro lugar, indicando qual seria o ideal institucional, definindo-o como “um poder não controlado por leis”; e, depois, ao descrever qual seria o processo revolucionário acalentado por ele, ao frisar que “uma revolução sem pelotão de fuzilamento de nada vale”. Essas foram as duas colunas institucionais, nitidamente despóticas, que sustentaram a Revolução de Outubro.

 

* Ricardo Vélez Rodríguez é docente da Universidade Positivo e da Facultade Arthur Thomas (Londrina).