Arte, cultura e comportamento como inspiração de moda

Coleções conceituais trazem implícitas pesquisas que mergulham em temas diversos, fazendo uma releitura instigante em cada criação

Desenvolver uma coleção de moda é um sistema bem complexo, mas extremamente prazeroso pra quem leva isso muito a sério. Os formandos em Design de Moda na Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), em Florianópolis, são um exemplo de como isso acontece da forma mais diversa e curiosa. Durante um ano eles escolhem um tema, buscam referências e, geralmente, trazem no contexto alguma menção cultural.

A partir daí, buscam matérias-primas, testam tecnologias têxteis, traçam dezenas de croquis, escolhem os mais significativos e partem para o desenvolvimento e produção das peças. Tudo isso leva tempo e muito acompanhamento de professores e orientadores desse projeto que, ao final, passa ainda pelo crivo de cerca de 2 mil pessoas que acompanham o OCTA Fashion – o desfile oficial da Udesc -, inclusive com a participação de representantes das indústrias têxteis e de confecção do Estado de Santa Catarina.

Haja fôlego. Mas isso, os alunos provam que têm de sobra. E o resultado é compensador. Gabriela Tombini faz parte da turma que concluiu o curso, desfilou no OCTA Fashion e recebe o diploma de formatura no primeiro semestre do ano que vem. Ela criou a coleção “Tramas”, trazendo o universo do artista plástico Tunga (1952/2016), com suas esculturas arquitetônicas e estruturas tramadas para desenvolver peças que misturam tricô e couro em composições assimétricas, recortes diferenciados e tonalidades atemporais que remetem às obras do artista. Sua coleção é para uma mulher contemporânea, cheia de atitude como o próprio Tunga – uma referência genial.

Nathália Pires Rau, por sua vez, se inspirou nas referências artísticas e arquitetônicas da cidade espanhola de Sevilha e na cultura festiva e revolucionária que envolve a província de Andaluzia. Aqueles vestidos típicos ganham releitura contemporânea, com mais transformações estéticas do que simbólicas, respeitando a tradição e história. Sua coleção “Aire” concilia os principais elementos tradicionais da cultura flamenca, mas com modelagem autoral, moderna, com identidade de moda própria.

Sem um ponto específico, mas atenta aos novos comportamentos, Natasha Beran preferiu a simplicidade e o minimalismo na modelagem da sua coleção “Exposed”. Aqui o foco é a combinação do luxo e do streetwear, materializado em vestidos e saias de estrutura fluida, com recortes que mostram, às vezes, além do convencional. Peças versáteis e distintivas em looks com linhas retas, numa paleta de cores neutra e atemporal. O foco principal é estilo original e, aparentemente, sem esforço. Mas que traz embutido muita pesquisa e talento.