OPINIÃO / O resgate da credibilidade / Darci Piana*

A longa crise política brasileira parece encontrar seu desfecho com o processo de impeachment da atual presidente. Mesmo que o cenário político continue incerto, espera-se que as discussões em relação a alguns dos problemas econômicos mais urgentes que o país enfrenta sejam retomadas na próxima gestão, já que o enfrentamento dessas questões será fundamental para a própria governabilidade.

O mais importante deles é a crise fiscal. A trajetória atual da dívida pública é insustentável, ou seja, a cada dia que passa o endividamento do setor público alcança patamares mais difíceis de serem financiados. A recessão da atividade econômica e as altas taxas de juros elevaram o déficit das contas públicas para acima de 10% do PIB no ano passado e a dívida bruta tende a alcançar 80% do PIB no próximo biênio. À medida que a dívida cresce em relação ao PIB, maior é o esforço fiscal necessário para reverter sua trajetória, pois a conta de juros aumenta e é agravada pelo aumento dos prêmios de risco relacionado à possibilidade de sua renegociação.

Como não se enxergam no horizonte fatores que possam proporcionar uma recuperação do crescimento econômico, um ajuste fiscal que reverta totalmente o avanço da dívida no curto prazo é inviável. Com as receitas de impostos e tributos recuando em termos reais, o esforço necessário agravaria a recessão. Mesmo que sejam aprovadas reformas da previdência, fiscais, tributárias e orçamentarias, a implantação e os impactos de tais mudanças estruturais não seriam imediatos e deveremos conviver com pressões fiscais por mais algum tempo. No entanto, medidas que sinalizem uma melhora nas contas públicas no médio e no longo prazo e reduzam a velocidade de crescimento do endividamento já seriam efetivas para melhorar o cenário econômico. A melhora no quadro fiscal proporciona uma redução dos prêmios de risco e uma melhora da confiança dos agentes econômicos, sem a qual não será possível a recuperação da atividade econômica.

 

A recessão econômica é outro problema urgente a ser enfrentado pelo próximo governo. Com a retração esperada para este ano, a perda do PIB acumulada em dois anos de recessão deverá ser de 7,5%. A taxa de desemprego supera 10% da população economicamente ativa e o poder de compra dos consumidores brasileiros reduziu a patamares do segundo semestre de 2013. Somando à redução de renda a retração no credito pelo segundo ano consecutivo, a demanda das famílias brasileiras, que representa mais que 60% do PIB brasileiro, recua fortemente. A crise política e fiscal também derruba os investimentos. Com exceção da agropecuária, todos os setores enfrentam intensa retração.

 

Apesar dessa queda significativa, o novo governo contará com alguns fatores positivos para a atividade econômica. Parte dos ajustes negativos, alguns dos quais agravam a recessão no último ano e no atual, já se completou. O realinhamento dos preços relativos, com a correção de tarifas públicas, já se concluiu. O ajuste da taxa de câmbio, cuja sobrevalorização provocou grandes distorções no setor produtivo, também já ocorreu.

 

Passados os impactos da inflação corretiva e com a atividade econômica operando com grande ociosidade, os índices de preços finalmente começam a dar sinais de arrefecimento e, mesmo a inflação de serviços, que apresenta maior persistência em relação aos demais grupos, já assume tendência de queda. O alívio na inflação deve vir acompanhado de uma recuperação cíclica, ainda que tímida, a partir do segundo semestre.

Não existe caminho ao governo Temer que não seja colocar o país no rumo correto. Para isso, além de todas as medidas aqui elencadas, também é necessário que ele elimine de pronto as crises que tende a enfrentar. A falta de diretrizes leva a desgastes, que por sua vez afetam a percepção dos cidadãos sobre a eficiência da administração. Se a saída do ministro do Planejamento, Romero Jucá, foi resolvida em 24 horas, a pretensa extinção do Ministério da Cultura ficou uma semana nas manchetes, enfraquecendo o governo junto à opinião pública.

Estratégia e eficiência. Eis aí duas virtudes essenciais que nossos governantes precisam demonstrar.

 

Darci Piana

Presidente do Sistema Fecomércio Sesc Senac Paraná

(karla@pr.senac.br)

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