Cenário econômico da tríplice fronteira é debatido em Foz do Iguaçu

Brasileiros, argentinos e paraguaios expuseram suas realidades e promoveram discussão sobre os cenários nacionais e as influências da macroeconomia de cada país na Região Trinacional; encontro aconteceu na última terça-feira, dia 21

Cerca de 80 pessoas, representantes de conselhos de desenvolvimento econômico e social das cidades de Foz do Iguaçu, Cuidad Del Este e Puerto Iguazú - Codefoz, Codeleste e Codespi, respectivamente - participaram de evento inédito para debater as inter-relações da economia do território de fronteira. O 1º Seminário Econômico de Fronteira, ação integrante do Projeto Fronteiras Cooperativas, aconteceu em Foz do Iguaçu no dia 21 de junho e contou ainda com a presença de especialistas, empresários e membros dos três conselhos. 

Conforme explica o consultor do Sebrae/PR, Augusto César Stein, o encontro tinha por objetivo provocar a discussão sobre a economia de forma integrada entre os países. “Agora, que já contamos com os conselhos formados nas três cidades de fronteira, precisamos falar sobre temas pontuais e estratégicos. A realidade e o momento econômico de um país afetam os demais, positiva ou negativamente. Desta forma, nosso intuito é abrir um debate sobre a questão, fazendo com que um conheça melhor o outro e possam encontrar soluções conjuntas”, frisou Stein. 

No centro dos debates, cada conselho indicou um especialista para abrir o panorama da economia em seu país e, após, interagirem entre si e o público presente. Doutora em economia, a brasileira Mirian Beatriz Schneider abriu as explanações sobre a situação econômica no Brasil. “Somos um país integrado ao mundo e o que acontece aqui é um processo de crise internacional. Retraímos as demandas e isso afetou o preço das commodities, que, em consequência, afetou o valor exportado, atingindo a arrecadação nos estados”, observou. 

De acordo com a economista, paralelo à crise econômica, o Brasil vive a instabilidade política. “Esse não é um cenário simples, mas é resultante de um processo e o erro foi, ao longo de 2013/2014, não dimensionar o quão grande era esse processo. O ano passado foi um período de paralisação completa, e eu acho que não é um cenário só brasileiro, mas a América Latina inteira entrou em uma espécie de letargia. Assim, considero que essa discussão não pode ficar restrita ao cenário interno”, provocou Mirian Beatriz Schneider. 

Mestre em economia e atual vice-ministro no Ministério da Indústria e Comércio do Paraguai, Óscar Stark concordou com os impactos diretos que os três países têm em relação às macroeconomias nacionais, principalmente nas cidades que ligam a fronteira. “Nossa projeção de crescimento neste ano é de 3%, uma taxa menor do que vínhamos crescendo. Isso tem relação com a economia do Brasil principalmente e, também, da Argentina. Um impacto muito forte em um país que têm grande parte da população concentrada na fronteira”, alertou Stark. 

Ciudad Del Leste, na avaliação do especialista paraguaio, é a primeira a sentir os impactos econômicos dos países vizinhos. “O consumo brasileiro tem um impacto muito grande no comércio de Ciudad Del Leste. A fronteira tem essa ligação muito forte e por isso é muito importante que tenhamos essa abertura para o diálogo. Precisamos nos conhecer cada vez mais e buscar complementação entre nossas economias, sobretudo na fronteira onde se encontram nossos países unidos por três cidades. Há, sim, muitas possibilidades de crescimento e desenvolvimento conjunto”, assinalou. 

Além de contextualizar um pouco do cenário na Argentina, o economista e especialista em Mercosul (Mercado Comum do Sul), Gustavo Segré abordou sobre a responsabilidade da Tríplice Fronteira. “Se você analisar, a região que concentra o Mercosul é aqui, não tem outro lugar onde se tem três cidades, três estados e três países. Em função disso, é muito importante que um projeto de incorporação unificada, por exemplo de produção, aconteça aqui, para mostrar que o Mercosul, de fato, tem futuro”, explanou. 

Em sua avaliação, a proposta de união produtiva de bens em um produto ‘made in Mercosul’ até agora não aconteceu. “Ou o Mercosul retrocede a zona de livre comércio, em que cada um faz o que acha melhor; ou o Mercosul mantém a união aduaneira que temos hoje, mas reforçando o critério do objetivo conjunto (vamos fazer um produto juntos?). Se conseguirmos fazer alguma coisa neste sentido aqui, mostraremos aos pessimistas que é possível. Então a responsabilidade desta região, em particular, é decisiva”, enfatizou Segré. 

União 

Segundo Augusto Stein, do Sebrae/PR, foi com o objetivo de unir atores atuantes nas três cidades de fronteira que o Projeto Fronteiras Cooperativas começou em 2014. “Quando começamos o projeto o Codefoz já estava consolidado, desde 2012. Em seguida, as instituições do Paraguai e Argentina, com o apoio do Fronteiras Cooperativas  e tendo como base o modelo de Foz do Iguaçu, também instituíram seus conselhos: o Codespi (Puerto Iguazú) e Codeleste (Ciudad Del Leste), criados no final de 2015. Essas governanças concretizam o desafio de desenvolvimento da fronteira como um todo”, apontou. 

“Trabalho muitos anos com comércio internacional e minha posição é de que nós não conhecemos, não comerciamos e não fazemos planos juntos e, por isso, somos tão frágeis”, complementou Mirian Beatriz Schneider. Para ela, o mercado comum aumentaria a competitividade internacional. “Se a gente reunisse a América Latina, seríamos uma força geopolítica com uma estratégia absolutamente diferente de inserção internacional. O quadro de fronteira, especificamente, não deveria ser discutido separado e existe um cenário de retomada da expectativa positiva”, assegurou a economista brasileira. 

O argentino Segré alertou, ainda, para o momento crucial que pode fazer com que a engrenagem do mercado integrado comece a funcionar. “Este é o momento decisivo, porque você tem um governo novo na Argentina, um governo interino no Brasil que já está fazendo mudanças e que, mesmo em qualquer uma das opções, seja que o interino continue, seja que retorne o presidente afastado, nada será igual como era. Então, essa realidade pode trazer a incorporação do Paraguai dizendo que ambos estão sob novas perspectivas e que é preciso seguir junto, sair da zona de conforto”, salientou. 

Voz no Mercosul 

Outra conquista esperada pelos conselhos da tríplice fronteira é a possibilidade de ingresso no SGT 18, um subgrupo de trabalho do Mercosul que foi recém-criado para tratar somente de assuntos relativos às fronteiras entre os países integrantes. A ‘cadeira’ é pleiteada para a governança trinacional desde maio deste ano, em reunião para formatação do SGT 18 em Montevideo, no Uruguai. 

O presidente do Codefoz, Roni Temp, acredita que as chances de sucesso do pedido de integração ao subgrupo do Mercosul são muito positivas. “Somos a maior fronteira do Brasil, em população e importância. Queremos um representante para poder levar os anseios da região do Iguaçu para esse grupo. Reforçando, inclusive, que a nossa representatividade vai ser alternada, formada ora pelos conselhos no Brasil, Paraguai e Argentina”, garantiu.

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