Um ano e meio após intervenção judicial, Faculdade Evangélica respira novos ares

A Faculdade Evangélica do Paraná assinou há poucos dias convênio de cooperação técnica e acadêmica com instituições de ponta da pesquisa médica mundial, entre elas, a Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, e a Universidade de Würzburg, na Alemanha.

As parcerias seriam algo impensável há um ano e meio, quando a faculdade sofreu intervenção judicial por decisão da Justiça do Trabalho do Paraná, a pedido do Ministério Público, em meio a uma grave crise administrativa e financeira – evidenciada pelo atraso de salários, não recolhimento de impostos e inadimplência com fornecedores.

Há trinta anos atuando na Faculdade e no Hospital Evangélico, o médico Paulo Roberto Rossi recorre à sua especialidade, cardiologia, para resumir a situação dramática vivida ao final de 2014, que levou à intervenção decretada pelo juiz Eduardo Baracat, titular da 9ª Vara do Trabalho de Curitiba.

“Era como um paciente infartado. A intervenção significou fazer angioplastia, aplicar os medicamentos necessários, orientar o paciente a cada passo, tentando reorganizar e salvar a vida dele. A crise aguda foi tratada, o paciente ainda exige cuidados, mas tem boas chances de retomar a vida normal”.

Antes da intervenção, ainda em curso, as contabilidades da faculdade e do hospital eram misturadas com as contas da sociedade mantenedora, em uma barafunda financeira que pregava frequentes sustos no administrador nomeado pela Justiça do Trabalho.

“Havia dívidas gigantescas com alugueis, a maioria dos cursos era deficitária e as instalações estavam sucateadas, inclusive alguns laboratórios importantes para a pesquisa acadêmica”, observa a interventora Carmen Austrália Paredes Marcondes Ribas, médica pediatra formada pela faculdade.

Para o professor de Cirurgia Osvaldo Malafaia, a intervenção “não apenas foi necessária, mas era desejada há algum tempo pelo corpo clínico do hospital e da faculdade”. “Nossas dificuldades eram insolúveis”, afirma o médico, para emendar que “se não houvesse a intervenção, talvez não mais existíssemos”.

O processo de saneamento exigiu medidas drásticas, como o fechamento de sete cursos que davam prejuízo e a devolução de vários imóveis alugados. “Conseguimos estancar os débitos, negociar as dívidas trabalhistas e de aluguel, além de colocar a folha de pagamento dos funcionários e dos professores em dia”, destaca a interventora.

“A faculdade estava com nota muito baixa na avaliação do MEC, com risco de fechar, não só pela dificuldade financeira, mas também pela avaliação acadêmica. Hoje todos estão mais otimistas em relação ao futuro, os investimentos estão acontecendo e a faculdade só tende a melhorar”, completa Carmen Ribas.

O médico Matheos Chomatas, que acumula ampla experiência na gestão de saúde pública, observa que o setor sofre de um problema histórico de subfinanciamento no País. Para ele, no entanto, a situação da Sociedade Evangélica Beneficente, mantenedora da faculdade e do hospital, ia além disso: “Havia uma crise de credibilidade. As indicações seguiam critérios confessionais e, assim, a mão de obra não era a melhor possível. A pretensão de implantar um centro universitário ligado à área de saúde não deu certo porque as mensalidades eram muito altas, incompatíveis com os valores de mercado. Também havia um curso de Teologia deficitário, com muitas gratuidades. Outros cursos começavam com 40 alunos e terminavam com apenas quatro ou cinco”.

Os atuais alunos do 8º período de Medicina atravessaram todo o período de turbulências. “O clima era terrível”, resume Marcela Abujamra. Ela lembra que pouco antes da intervenção houve 174 segundas chamadas para Medicina, que tem 60 vagas, porque o clima era de total insegurança quanto à própria sobrevivência da Faculdade, em função da crise no Hospital Evangélico.

Atualmente, a realidade do laboratório de patologia ilustra o quanto já foi possível avançar após a intervenção, segundo Simão Lustosa, também estudante do 8º período.

“O laboratório está mil vezes melhor, cada aluno tem um computador em que pode acompanhar o que o professor projeta a partir do microscópio”, observa. “Vivemos um clima de contágio positivo”, comemora Johnny Godoy, do 4º período. “Hoje sabemos que se houver algum problema, temos quem nos ouça, o que não acontecia antes.  Há mais transparência e diálogo com a comunidade acadêmica”, garantiu.

A Faculdade Evangélica já negociou 80% das dívidas dos imóveis alugados, assim como a maior parte do passivo trabalhista e das pendências com impostos não recolhidos. “Não podemos afirmar qual é o real valor das dívidas, que ainda podem aumentar. Mas há visíveis melhorias. Os alunos estão satisfeitos, e isso se reflete na procura pelo vestibular e pelas transferências. Temos também 23 cursos de especialização, todos totalmente preenchidos. A recuperação da credibilidade trouxe de volta as doações da sociedade e os convênios nacionais e internacionais. Tenho certeza que a faculdade irá retomar todo seu prestígio e tradição”, conclui a interventora.

 

Hospital eleva produtividade, mas ainda luta para equalizar dívidas

Com um passivo de R$ 346 milhões, conforme balanço publicado no início deste mês, o Hospital Universitário Evangélico de Curitiba busca superar a pior crise de sua história conjugando austeridade administrativa com uma atitude de transparência e diálogo permanente com o corpo clínico, funcionários, credores e fornecedores.

O saneamento completo do hospital ainda pode demorar anos, permanecem graves questões orçamentárias, mas houve avanços significativos quando se compara a situação atual ao caos administrativo e financeiro que levou à intervenção da Justiça do Trabalho, em 2014.

O interventor Carlos Alberto Miguez de Senna Motta destaca a superação das metas contratualizadas com a Secretaria Municipal de Saúde para atendimentos e procedimentos médicos. Antes da intervenção, o Evangélico não conseguia atingir 80% da meta, patamar mínimo para receber integralmente os recursos do Sistema Único de Saúde. Hoje, a produtividade atingiu 120% da meta, aumentando os repasses na mesma proporção. Da totalidade de atendimentos no Evangélico, 95% são vinculados ao SUS. Dos casos de traumas ocorridos em Curitiba, 50% vão parar no hospital.

Outro passo decisivo em direção a um quadro mais favorável, segundo o interventor, foi a recuperação do grau de confiança do corpo clínico e funcional (cerca de 370 médicos e 1700 funcionários), com a regularização do pagamento dos salários. “Tendo garantido o apoio da força de trabalho, nosso foco voltou-se para a negociação das dívidas tributárias, de forma a conseguirmos as certidões negativas que nos permitam ter acesso a recursos derivados de emendas parlamentares, nos âmbitos federal, estadual e municipal”, afirma Motta, que assumiu o processo de intervenção em outubro de 2015.

O desafio da vez é equalizar as dívidas bancárias. “Estamos buscando alongar o prazo de vencimento da dívida com a obtenção de empréstimos junto a instituições financeiras que oferecem juros subsidiados, a exemplo da Caixa Econômica e BNDES, para ganharmos fôlego de caixa”, sublinha o interventor.

 

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