Moro encerra seminário internacional sobre ética, em Curitiba

Em palestra para mais de 2 mil universitários, o juiz federal Sérgio Moro encerrou o seminário internacional “Vamos conversar sobre ética”, na quinta-feira, 18, no Teatro Positivo, em Curitiba. O magistrado relatou sua experiência à frente da operação Lava Jato e respondeu as perguntas de estudantes da Graduação e Pós-Graduação da Universidade Positivo sobre o tema.

O juiz federal comanda, desde 2014, o julgamento em primeira instância dos crimes identificados na operação Lava Jato que, segundo o Ministério Público Federal, é o maior caso de corrupção e lavagem de dinheiro já apurado no Brasil, envolvendo agentes políticos, empreiteiros e funcionários da Petrobras. No evento, Moro ressaltou que a operação não é a solução para o problema da corrupção sistêmica no Brasil, mas é o primeiro passo. Ele afirmou também que a Lava Jato não é culpada pela grave crise econômica que a Petrobras se encontra e que os problemas da empresa precedem as investigações – citando como exemplo os prejuízos da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco.

Questionado por um acadêmico do primeiro ano de Direito sobre as dificuldades enfrentadas pelo Judiciário no combate à corrupção, Moro enfatizou que deve haver uma mudança cultural no sistema de Justiça, aliada a mudanças legislativas para acabar com a morosidade dos processos e o foro privilegiado. “Se o Judiciário tiver 50% de rigor contra a corrupção como tem, por exemplo, contra o crime de tráfico de drogas, já é um primeiro passo”, comparou.

Ele disse ainda que ficou assustado com a naturalidade que os envolvidos no esquema de corrupção da Petrobras detalhavam as irregularidades. “Uma coisa que me perturbava muito foi a constatação de que vários dos envolvidos confessaram o pagamento e recebimento de propina de maneira muito natural, revelando uma naturalização do pagamento de propina em contratos pelo Brasil”. Segundo ele, a resposta mais comum dos investigados – e, agora, condenados – era que “se tratava da regra do jogo”.

Moro deixou também um recado para os empresários: “o problema da corrupção no Brasil não é só do governo. Ela envolve quem recebe, mas também quem paga. As empresas podem promover uma mudança simplesmente dizendo não ao pagamento de propina”. Para o juiz, uma das saídas possíveis para reverter o quadro de corrupção é a aprovação do projeto “Dez medidas Contra a Corrupção”, encampado pelo Ministério Público Federal (MPF), que está em trâmite no Congresso.

Promovido pelaUniversidade Positivo (UP), o seminário internacional “Vamos conversar sobre ética” abordou a ética nas esferas empresarial, pessoal e corporativa. Além de Moro, o evento contou ainda com exposições do empresário e fundador do Grupo Positivo, Oriovisto Guimarães, e do professor italiano Sergio Casella. O reitor da Universidade Positivo, José Pio Martins, encerrou o seminário reforçando que a formação ética e a educação devem andar juntas. “Só assim construiremos o país que sonhamos”, concluiu.

 

Lava Jato x Mãos Limpas

O empresário italiano e professor da Università deli Studi di Pisa, Sergio Casella, autor do livro A moralidade corporativa – um modelo baseado na ética para ter sucesso nos negócios, ministrou palestra sobre o tema principal de sua obra. Presidente de operações internacionais da Paper Converting Machine Company, empresa multinacional americana com sede na Itália, Casella afirmou que não há ética sem liberdade: “para agir de forma ética, temos que poder escolher”, ressaltou.

Quando questionado sobre as semelhanças e diferenças da operação Lava Jato, em relação à Mãos Limpas, da Itália, Casella acredita que a Lava Jato tenha maior magnitude, embora ambas tenham o mesmo propósito de acabar com a corrupção. “Antes de Mãos Limpas, corrupção era ético, um comportamento aceito e difundido. Todos sabiam, ninguém reclamou. Hoje, é considerada um crime. Agora, as relações entre asempresas e governo são definitivamente diferentes. No entanto, os jogos de poder existem desde sempre. O favoritismo continua existindo – parentes ou amigos têm posições políticas de privilégio ou alguns facilitadores para que determinadas empresas ganhem contratos públicos. Mas, se essas coisas são descobertas, vêm à luz. A Mãos Limpas ajudou a repor a legalidade, mas não ética”, explicou. Os três convidados insistiram na mesma receita: a ética só pode ser alcançada com uma mudança cultural na população, nas empresas e nos governantes.

Casella instigou a reflexão sobre aliderança indicativa (na qual o líder comanda pelo exemplo), que deve preceder a liderança imperativa (que dita regras). “Não se pode esperar que as pessoas deem o que nunca receberam”, ressaltou o empresário. A renda do evento foi integralmente revertida para o projeto Arranjo de Desenvolvimento da Educação, realizado pelo Instituto Positivo, em prol da melhoria da qualidade da educação pública brasileira, que congrega municípios e estabelece metas para o apoiomútuo de educadores. Atualmente, mais de 80 mil alunos são beneficiados pelo programa. O evento marcou também o lançamento do terceiro Relatório de Sustentabilidade do Grupo Positivo, que pode ser conferido no site www.positivo.com.br/instituto/sustentabilidade.

centralpress@centralpress.com.br

Crédito: Larissa Portes

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