[ARTIGO] Crianças muito quietas: problema à vista?

Muitas vezes no ambiente escolar fica bastante difícil reconhecer nas crianças muito quietas aquelas apenas sonhadoras, ensimesmadas por algo que uma grande escritora chama de “sintoma de poesia”, ou seja, a semente de alguém que olha o mundo com curiosidade, tem profundo interesse pela leitura – o que depende de ter acesso a uma biblioteca ou acervo doméstico de seus pais ou parentes – e que manterá ao longo da vida o hábito de pensar antes de falar, uma discrição inerente à sua personalidade, e que provavelmente será canalizada para a música, a pintura ou a escrita, um trabalho mais criativo com as mãos, um jeito inovador de usar o conhecimento.

De forma geral, procuramos “incluir” estes educandos, mesmo contra suas vontades, para a convivência e o trabalho em grupo, pois sabemos que este é um valor para nossa sociedade atual, fazer parte de uma equipe tem valor no mundo do trabalho, e o sistema educacional tem, entre suas várias outras funções, preparar desde muito cedo um futuro profissional.

Embora, claro, contrariando uma tendência natural, esta obrigação não deixa de constituir uma imposição da vontade da maioria sobre uma minoria não problemática e até desejável numa comunidade saudável.

Porém, as caladas podem também simplesmente estar denunciando, através deste silêncio, algo de muito grave que acontece em seu meio familiar, ou seja, fazendo um pedido de socorro, pois jovens e crianças dão sinais, embora sutis, de que as coisas não estão bem, revelando suas angústias durante algumas brincadeiras, na elaboração de um texto, ou no péssimo comportamento que manifestam. É indispensável um olhar atento, coisa que salas superlotadas, ou excesso de alunos em muitas salas dificultam ao professor; pais ocupados demais, em luta pela sobrevivência ou simplesmente descuidados de seus filhos raramente conseguem detectar a tempo; e tais crianças podem inclusive estar sofrendo de depressão, abusos ou agressões.

A questão da violência não demonstra, infelizmente, ter solução no curto prazo. Este não é um fenômeno novo, tem acompanhado a história de nossa civilização desde os primórdios, merecendo ao longo dos séculos alguns comentários de personagens ilustres ou desconhecidos – porém atentos – que tentaram entender suas origens e modos de efetivação. No entanto, tem tido atualmente um destaque inédito e intenso em publicações e pesquisas acadêmicas, assim como de profissionais das diversas mídias, pois, inscrita em nossa história, sempre representou um estágio em que a vida em sociedade corre perigo, pois estabelece um clima de pânico, de terror e de ausência de empatia.

A presença da selvageria implica na imprevisibilidade, no caos, deixa rastros de uma situação dramática, perdemos qualquer certeza nos comportamentos cotidianos; e se isso é verdadeiro para adultos, mais ainda nas idades iniciais.

Em acréscimo, mesmo na ausência da violência física outras modalidades de más influências podem atuar levando à depressão, cujos sintomas são difíceis de detectar, dado que violência moral não deixa marcas físicas e nem por isso é menos prejudicial, muitas vezes colocando em risco a própria vida e equilíbrio mental. Depressão é doença insidiosa, e acomete os muito jovens com mais frequência do que gostamos de aceitar, e assim não é fácil a tarefa educacional, pois alunos trazem nas suas narrativas existenciais contextos muito diferentes, que exigem tempo e observação acurada para serem compreendidas, dedicação para serem acompanhadas e amor (sim, esta é a palavra correta) para serem orientadas.

Quem tem uma criança ou jovem muito quieto em casa deve se esforça para, às vezes, ouvir o seu silêncio, que pode ser mais eloquente do que pensamos.

 

Wanda Camargo – educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil – UniBrasil. wcmc@mps.com.br

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