Pacientes oncológicos devem procurar um dentista antes de iniciar o tratamento

O Conselho Federal de Odontologia não reconhece a oncologia como especialidade na área odontológica, porém, muitos dentistas têm atuado em pacientes oncológicos após realizarem cursos com esse enfoque. A cirurgiã-dentista Caroline Beatrice Ramos integra a equipe do recém-criado Serviço de Cirurgia Bucomaxilofacial do Instituto de Oncologia do Paraná. A especialista é graduada pela Universidade Federal do Paraná, conta com especialização em Cirurgia Bucomaxilofacial, em Implantodontia e habilitação em Odontologia Hospitalar e em Laserterapia.

Mas, afinal, o que a odontologia tem a ver com pacientes oncológicos? Tudo! Principalmente levando em consideração que os dentistas podem atuar desde a prevenção e o diagnóstico precoce do câncer de boca até as fases pré e pós-tratamento do paciente. Nessas fases, o objetivo é evitar as complicações bucais decorrentes da quimioterapia e da radioterapia. “Em geral, participamos desde o momento do diagnóstico da lesão ou de outras lesões, não somente o câncer, mas qualquer lesão de boca, inclusive preparando o paciente para o tratamento quimioterápico ou de radioterapia”, diz Dra. Caroline Ramos.

A partir do momento em que o paciente é diagnosticado com câncer, provavelmente já estará ciente do tipo de tratamento que irá enfrentar.  Procurar um dentista que compreenda o tratamento oncológico, independentemente do tipo e da região do tumor, é muito importante, pois o profissional irá orientar o paciente quanto ao tratamento, mediando complicações, como dor, falta de saliva e desconforto. Além de avaliar a necessidade de remoção de dentes comprometidos e diminuir a quantidade de bactérias e fatores irritantes presentes na boca através da limpeza, é preciso dar atenção também às próteses, pontes e dentaduras. O cuidado deve estender-se também aos implantes, pois a área em seu entorno acaba sofrendo um pouco mais de radiação pelo reflexo do metal, o que pode levar a ocorrência de uma osteorradionecrose.

Pacientes que se submetem a uma cirurgia na cavidade bucal ou à quimioterapia e/ou radioterapia na região da cabeça e pescoço precisam estar bem preparados. Cabe ao dentista a função de tentar minimizar e manejar os efeitos colaterais provenientes desses procedimentos, que podem ser, por exemplo, “a mucosite, que é uma inflamação dos tecidos que revestem as mucosas da boca, dando sensação de queimação, dor, vermelhidão, úlceras (aftas) e feridas na mucosa, que se estendem com frequência para a laringe e a faringe, além da falta de saliva e de cáries de radiação pós-tratamento”, cita a especialista.

Xerostomia, a chamada boca seca

É comum acontecer com pacientes em tratamento oncológico a xerostomia, ou seja, a falta de saliva. Além de ser um lubrificante bucal, a saliva ajuda na auto-higiene dos dentes, na diluição dos alimentos e na defesa contra vírus e bactérias, por isso é tão importante. Paciente com boca seca geralmente possui acúmulo de placa bacteriana, levando ao acúmulo de toxinas produzidas pelas bactérias bucais, o que pode piorar o quadro de mucosite. Para aliviar os sintomas da boca seca são utilizados bochechos prescritos pelo cirurgião-dentista. Uma opção, também, são os bochechos com produtos naturais, que podem ser feitos com chá de camomila ou malva. A dentista ainda menciona que “a radioterapia na região de cabeça e pescoço pode fazer diminuir a quantidade de saliva e pode alterar sua consistência, provocando ardência, cárie de radiação, dificuldade de engolir a saliva mais espessa produzida e alguns alimentos devido à não diluição pela saliva, e, ao longo do tempo, pode ocasionar aftas, infecções e até queda e fraturas de restaurações”.

Laserterapia

Considerado um tratamento não invasivo, a laserterapia pode prevenir lesões na boca, minimizando o desconforto e acelerando a cicatrização de feridas. “Usamos o laser de forma terapêutica para o alívio ou diminuição da dor. O laser de baixa potência tem efeito anti-inflamatório, acelerador da recuperação dos tecidos e analgésico. Muito indicado para o tratamento da mucosite oral, esse procedimento consiste em uma energia luminosa que provoca alterações químicas e celulares, capazes de recompor as células e melhorar a sensação dolorosa”, destaca a cirurgiã-dentista.

A aplicação do laser é realizada no próprio consultório odontológico, podendo ser feita até mesmo em leitos e macas hospitalares. Para evitar acidentes, são fornecidos óculos de proteção específicos para o laser utilizado em todas as sessões, mesmo sendo a aplicação realizada dentro da boca. A aplicação e configuração do aparelho é personalizada, ou seja, para cada paciente, de acordo com o quadro de mucosite apresentado, o grau de sensibilidade dolorosa e a resposta à aplicação do laser feita anteriormente.

“O laser pode ser utilizado a partir do primeiro dia de tratamento oncológico, de maneira preventiva, e são mantidas as sessões de laserterapia até a completa melhora dos sintomas, algumas semanas após o término da quimioterapia e/ou radioterapia”, explica a especialista. “O laser é utilizado não apenas para as feridas (mucosite) decorrentes do tratamento oncológico, mas também auxilia na recuperação de danos em nervos, nas paralisias e parestesias, resultado do tratamento oncológico ou de cirurgias e outros procedimentos realizados na região. São inúmeros os usos e benefícios que o laser de baixa intensidade nos traz”.

Higiene bucal

“Independente de ser ou não paciente oncológico todos devem fazer a higienização diária da boca, com a escovação e uso de fio ou fita dental, pois os restos alimentares se acumulam nas gengivas, língua e dentes, favorecendo a multiplicação de bactérias, causadoras de cáries, mau hálito, inflamações e infecções”, aconselha doutora Caroline Ramos. O acompanhamento odontológico pós-tratamento oncológico ajudará a controlar os problemas bucais que persistirem e/ou forem aparecendo, prevenindo infecções, auxiliando na reabilitação e na melhora da qualidade de vida do paciente oncológico.

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