Redux ILA, talk da maior comunidade especializada em UX, chega em Curitiba.

Highlights compartilhados por membros da comunidade sobre um dos maiores eventos de User Experience do mundo 

 

O Interaction Latin America (ILA) é a maior conferência de User Experience do mundo, recebendo um público com cerca de 2.000 pessoas. O evento é organizado pela comunidade de UX e sempre acontece em alguma cidade/país diferente, em 2018 foi sediado no Rio de Janeiro, em 2019, em Medellin, na Colômbia. Neste ano de 2020, será em San Jose, Costa Rica.  

O ILA busca estimular a discussão de temas relacionados ao design de interação e processos de experiência do usuário. Os conteúdos são em 15 talks de grandes keynotes + 100 falas da comunidade, também acontecem workshops e hackathons.

Com o intuito de compartilhar conhecimento, alguns membros da comunidade organizam o Redux ILA. Um evento realizado em diversas cidades, por pessoas que participaram do evento maior, para compartilhar o que aconteceu no ILA.  É voltado para designers e entusiastas da área e uma oportunidade de aprender sobre o que foi debatido no Interaction Latin America pelos líderes de Design ao redor do mundo. Em Curitiba, o Redux do evento aconteceu na CINQ Technologies e contou com a presença de Ana Paula U. Holtz e Herico Prado que compartilharam um pouco do conteúdo no seguinte texto.

Ana Paula U. Holtz

Participar do ILA já é, em si, uma experiência. Afinal trata-se de um evento mundial de UX organizado pela comunidade de UX designers para a comunidade de UX designers. A ambientação, lounges e a música fazem parte do pacote – que em Medellín teve o bônus do café colombiano fartamente distribuído. 

Ao lado da cidade, os designers colombianos trataram de acolher e festejar o ILA em casa. Isso se traduziu em um evento alegre, colorido e humano. A palestra inaugural coube à colombiana Angela Guzman, que contou a sua jornada como designer no Vale do Silício e introduziu a temática da liderança feminina em design, presente em todo o evento – Carolina Sepúlveda e Mariana Valenzuela endereçaram a questão em um painel específico. Maritza Guaderrama trataria a questão ao longo das suas falas cujo ponto principal foi o futuro do design. “O futuro do design e o design do futuro” levou ao público alguns dilemas de se fazer UX hoje: desapegar da jornada perfeita do usuário e buscar soluções para cenários de incerteza e fricção. Maritza levou trabalhos de designers latino americanos e encerrou sua fala com conselhos de designers do mundo todo para o público do ILA. Certamente uma das melhores palestras. 

Os desafios, altos e baixos da carreira de UX foram pontuados por Jason Mesut em “Shaping Designers”. Um mergulho nos perfis de design e grande contribuição de Jason que é muito ativo na comunidade. Na palestra, ele fala de um momento específico da sua carreira e sobre a apresentação de um projeto. Donna Spencer, magnífica, endereçou muito bem a questão em sua fala em um talk específico sobre como apresentar seu trabalho de Design. As palestras de Jason e Donna estão disponíveis aqui. 

No quesito desafios e dilemas merecem destaque ainda Joshua Seiden e Louis Rosenfeld. Joshua tratou do tema do seu último livro “Outcomes over Outputs” enquanto Rosenfeld tratou de desconstruir algumas crenças e jargões de UX na palestra “Prisões temporárias” que ele transformou em um artigo, “Momentos aprisionadores e como fugir deles” disponível em português! 

 

Liderança, dilemas, mulheres no UX foram temas que permearam o evento assim como proteção de dados, ética e inclusão. Esses temas aliados a outros mais técnicos – como o design system – vão construindo a face do UX hoje na América Latina. Porque somos esse caldo de cultura e problemas, com características únicas, que olha e aprende com a Europa, Ásia e Estados Unidos, mas também descarta, cria e adapta o que cabe e é necessário para o nosso quintal.   

Herico Prado

Dos diversos temas abordados pelo ILA 2019 (e foram muitos), seria incauto destacar este ou aquele como representante principal do evento. Nos permitiremos, no entanto, cometer tal pecadilho. Para sintetizar o evento no Redux é necessário fazer concessões. Deste modo, o que se pode extrair da atmosfera geral do evento é a preocupação com Operação do Design, segurança de dados, ética e inclusão.

Sobre Operação do Design, termo utilizado para englobar os processos de design dentro de uma organização, Design Systems ganharam atenção especial. Com destaques para a palestra “Os desafios de construir um Design System inclusivo”, de Lucas Otsuka e Ana Cuentro, representantes do Quinto Andar e “Os desafios de criar o primeiro Design System da maior telefonia da América Latina e estruturar sua Design Ops”, do Glauber Lana da Costa e Thiago Hassu, do coletivo Meiuca. 

O primeiro discorre sobre como a Acessibilidade precisa ser considerada na construção do Design System. Ana Cuentro, que possui deficiência auditiva, foi UX do projeto e contou sobre os desafios de unir as necessidades do negócio com Acessibilidade. Primeiramente, além de todo o planejamento, seria necessário que pessoas com deficiência participassem do processo de desenvolvimento. Há uma frase que aprendemos com a Ana e que é utilizada pela classe: tudo sobre a gente, mas nada sem a gente. Assim, não faz sentido criar uma plataforma inclusiva sem incluir o usuário que irá utilizá-la.

A Meiuca, por sua vez, trouxe o Mondri, Design System realizado para a Claro. A tônica da palestra ficou centrada na relação entre o negócio e a equipe de desenvolvimento. Aprendemos que Design System deve ser tratado como um produto da organização e não como um simples projeto. A Meiuca defende que um projeto nem sempre é priorizado e, por vezes, é abandonado ao longo da jornada de construção. Já o produto é visto como parte integrante da organização e não há intenção primária de descontinuá-lo. Nessa visão, seria necessário obter colaboração de diversos setores organizacionais para a construção eficiente do Design System, pois o conceito em si é colaborativo. Não se constrói um Design System sozinho. 

Outra palestra importante foi “Hipóteses e experimentação: possibilitando o diálogo entre a equipe de negócios e de produtos”, de Flávio Nazário. Sobre validação de hipóteses, o palestrante afirma que é necessário saber para qual direção se está indo, mas é fundamental seguir um caminho apontado por pesquisa prévia e é necessário validar as hipóteses junto aos usuários. Neste viés, haveria quatro perguntas a serem feitas no momento de se validar algo:

  1. Validando o problema: 

Vale a pena resolver o nosso problema?

 

  1. Validar o mercado: 

Estamos construindo algo que as pessoas querem?

 

  1. Validar o produto: 

Nosso produto está resolvendo o problema?

 

  1. Validar a disposição para o pagamento: 

As pessoas estão dispostas a pagar por isso?

 

Essas quatro perguntas contribuiriam para a melhor visualização e resolução de um problema a ser resolvido. 


Um termo recorrente e que permeou diversas palestras foi o “Research Ops”, que pode ser definido como os mecanismos e estratégias que colocam em movimento a pesquisa do usuário. Ele fornece as funções, ferramentas e processos necessários para apoiar os pesquisadores no fornecimento e dimensionamento do impacto e da criação em uma organização. O processo garantiria entre outras coisas, logística de recrutamento de participantes de pesquisa, princípios para documentação de processos e consolidação de pesquisa e suporte para locação de ambientes para pesquisa. Basicamente Research Ops é uma equipe ou pessoa responsável pela facilitação das práticas de pesquisa.

 

Outras discussões importantes ocorridas no ILA foram sobre ética e inclusão. Quando se fala de ética, o assunto geral referiu-se à proteção de dados. Recentemente eclodiu no mundo diversos escândalos sobre vazamento de dados de usuários, que foram utilizados para múltiplos fins. Os processos em torno de tal questão reúnem cifras milionárias e acende atenção dos serviços que guardam dados de usuários. 

 

Ao mesmo tempo, a GDPR, lei de proteção de dados europeia, serviu como modelo para a criação da LGPD, Lei geral de proteção de dados brasileira, que vigorará a partir de agosto/2022. A nova legislação exigirá uma outra concepção de compliance e uma experiência que considere a exclusão dos dados do usuário caso seja de seu desejo. O design e a organização precisam discutir juntos o tratamento que darão aos dados do usuário quando a lei for vigente. Nesse sentido, transparência é a palavra que norteia o assunto.  

Um ponto de atenção em relação a dados é a possibilidade de utilizá-los em favor do usuário. A inteligência artificial pode fazer o papel que detestamos e facilitar nosso dia a dia. O Uber, por exemplo, identifica a localização e o trabalho do usuário e propõe rotas até lá. Como podemos utilizar o serviço de dados em favor do usuário é uma lacuna a ser preenchida.

Esses últimos temas podem ser encontrados nas palestras “Opti-Pessimism”, de Cheryl Platz, “Ética em pesquisa: quais são as exigências atuais e porque devemos estar preparados?”, de Cecília Henriques e da Denise Pilar, “Ethics in UX research: When findings harm the users”, de Rafaela de Souza da Silva e “Design de negócio social para a inclusão de uma população carcerária”, de Thaís Falabella.

Como reflexão futura, o evento ponderou sobre: a importância de maior atenção aos dados dos usuários e a legislação pertinente; a inclusão como um conceito fundamental e que deve ser considerado no universo digital; a inteligência artificial como aliada e não inimiga; e sobre a colaboração continuar sendo essencial. O todo soma e o individual exclui. Reflita.

Por Ana Paula U. Holtz – UX Design – Legal Innovation, e Herico Prado UX Designer. 

 

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