Vandalismo e cidadania / Por Wanda Camargo

O termo vandalismo tem origem nos “Vândalos”, povo germânico que invadiu o Império Romano no século V, chegando até a saquear Roma. Desde sempre, exércitos invasores saqueiam propriedades, mas o que marcou esse povo especialmente foi a imensa destruição que praticaram além dos roubos.

Os atos de vandalismo são uma constante infeliz na História, boa parte cometidos contra tudo aquilo que de algum modo ofenda ou conteste a crença ideológica ou religiosa dos destruidores. Exemplos mais recentes são as atrocidades cometidas pelo Estado Islâmico contra sítios arqueológicos e peças de arte antigas no Iraque, mas sempre se destruiu tudo o que parecia incomodar, mesmo não tendo grande valor artístico ou moral como as estátuas de diversos ditadores derrubados em muitos países. 

Os crimes de roubo e vandalismo são igualmente condenáveis mas tem gêneses diferentes, na maior parte das vezes, ocasionalmente os vândalos cometem roubos, mas seu propósito principal não é este. A destruição “gratuita” de propriedades é fundada mais em ressentimento, frustração, sentimento de estar excluído de algo que seria seu direito; pesquisas costumam atribuir à indefinição de propriedade dos lugares como aspecto associado ao vandalismo e à violência, já que este não seria “responsabilidade de alguém”. 

Em função disso criminologistas norte-americanos desenvolveram o conceito de Prevenção Criminal através do Desenho Ambiental em meados de 1970, um conjunto de medidas de variação de fatores ambientais para reduzir ações violentas que são influenciadas pela estruturação física e social de locais, como ausência de oportunidades de participação nas atividades ali oferecidas, ou superlotação dos espaços. 

Muitas variáveis influenciam o comportamento de depredação, e é indispensável um plano geral de intervenção que atenda às diferentes dimensões e níveis do problema, envolvendo comunidade, escolas e famílias, pois se a indefinição de propriedade e responsabilidade sobre um lugar favorece a prática de delinquência, então melhorar o clima social, desenvolver discussões e estimular a participação comunitária, melhorar o sistema educacional, combater a indiferença e a apatia em relação aos demais moradores da cidade constituirá importante mecanismo de apropriação.

Nos tristes episódios de depredação que tivemos neste Carnaval no Largo da Ordem, em Curitiba, todos estes elementos estiveram presentes: ressentimento, frustração, exclusão, e somaram-se ao consumo exagerado de álcool, e talvez de drogas, além da “síndrome de manada” quando alguns elementos do grupo começam algo e são seguidos pelos demais; uma vez iniciadas, certas atitudes parecem criar dinâmica própria.

Ficamos chocados a cada vez que acontece algo semelhante, que parece não ter lógica alguma. As companhias telefônicas tinham enorme prejuízo para repor os “orelhões” que eram destruídos, e geralmente por pessoas que mais dependiam daqueles telefones públicos; e hoje assistimos inertes a frequência com que escolas e postos de saúde são invadidos por marginais que não se contentam em roubar, destroem estupidamente móveis e equipamentos, de que eles próprios ou seus próximos podem vir a necessitar. 

E é uma infinidade de pequenos ou grandes atos sem muito sentido que estragam as cidades, os parques, as lojas, as casas das pessoas. Uma indagação que vem à mente é: “como fazem isso na própria cidade que também é deles?”

E talvez a resposta seja que não sentem a cidade como sendo também deles, pertence aos “outros”.

Aparentemente fazemos muito pouco para dividir a cidade, não proporcionando a esses jovens educação, empregos, oportunidades, futuro. Evidente que a baderna e os prejuízos causados devem ser ressarcidos. Mas se esses jovens não forem integrados à comunidade, se não passarem de excluídos a cidadãos, continuarão sendo massa de manobra para qualquer liderança que os conduza às arruaças ou coisa ainda pior. 

Wanda Camargo – educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil – UniBrasil.

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