Um pesadelo / Por Wanda Camargo

Estamos negacionistas, não apenas ao assumir certas teorias sobre o formato da terra ou eficiência de vacinas, mas também no dia-a-dia. Negamos até aquilo que a simples lógica recomendaria não tentar esconder.

Negamos o formato da terra, negamos as queimadas das florestas, em que pese aquelas fotos já retiradas do espaço, negamos que exista uma pandemia em todo o mundo, o planeta só finge para derrubar nosso governo. Negamos o evidente, o claro, o cristalino, talvez como herança de um sistema jurídico que em algum lugar perdeu-se em firulas, em chicanas, postergações, em advogados caríssimos versados na arte de encontrar a terceira vírgula no quarto parágrafo que não estava adequada, desde que a nosso favor. Tais rábulas nos protegem a peso de ouro, pagos diretamente a eles ou alguns dentre seus familiares, mas família está acima de tudo, e proteção é essencial. O predomínio da forma sobre o conteúdo nos permite ocultar a essência dos fatos, sua veracidade ou não, construir narrativas fantasiosas, que atendam aos nossos interesses mais imediatos.

Se formos pegos em flagrante mentira, construímos imediatamente outra historieta, importante que ela nos justifique, não que tenha qualquer verossimilhança. Culpamos a mídia que nos persegue, o partido oponente, o inimigo mais ao alcance da mão e da difamação. Responsabilizamos escolas que não concordem em ratificar nossas falsas alegações de virtudes acadêmicas, empresas que não avalizem nossas alegações inconsistentes, pessoas que confrontem nossas versões; mesmo quando filmados dizendo impropriedades absurdas e ilegais, não era bem isso, não distorça o que dissemos, estão retirando de contexto, espere que amanhã diremos o porquê, agora pode prejudicar a estratégia de defesa.

Depósitos em nossas contas eram sempre empréstimos, quem não é de nossa família é eternamente culpado, essas evidências não provam nada porque não existe uma declaração assinada por nós, em três vias e registrada em cartório, que afirme tratar-se de corrupção. Não nos façam perder tempo, pois temos uma boiada a passar, enquanto estiver sendo pago nosso pedágio a destruição total de um bioma não é nosso problema. Aliás, não gostamos de minorias, de índios, de animais, mortes e de qualquer coisa que precise ser lamentada em público e requeira nossa hipocrisia, pois até esta homenagem do vício à virtude nos é penosa, é preciso achar um sanfoneiro e ter a paciência de ouvi-lo tocar, e a gente nem gosta de música, por sinal.

Não entendemos de arte, mas isso é mesmo coisa da esquerda, vivemos bem sem pinturas, esculturas e principalmente, credo em cruz, literatura, são palavras demais, precisa suavizar; nem a Bíblia lemos, somos religiosos “de orelha”, terrivelmente crentes nas palavras do pastor, para que necessitaríamos outras?

Também não apreciamos os gays, preferimos filho ladrão, e nossos rebentos, sendo bem educados, jamais casariam com pessoas de outras cores de pele, temos certeza de que mulheres devem ganhar menos porque tem este desagradável hábito de engravidar. Não reclame, muitas mulheres nos defendem, assim como “assimilados”, crendo-se branquinhos, atacam os de suas tonalidades de pele como vagabundos, ignorantes e beneficiados pela escravidão anterior, defendendo nossas bandeiras.

Criamos adeptos fervorosos e imunes a qualquer raciocínio, e isso, há de se convir, é uma qualidade – mesmo auxiliados por um gabinete de rancor e notícias falsas, somos talentosos na manipulação de corações e mentes. Nossos adeptos mais fiéis são poucos, mas fervorosos e muito barulhentos, além de apreciadores e/ou portadores de armas, claro.

O país deseja acordar deste sono torturante, mas parece mergulhar cada vez mais nele. A Peste, os Gafanhotos, a Seca, o Ciclone Bomba, o primogênito sob ameaça da Justiça, não são sete as pragas e espera que a isso não cheguem; aguarda a revalorização de conhecimento, estudo, cultura, arte e esperança para ser salvo.

 

Wanda Camargo – educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil – UniBrasil.  

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