As bombas e a necessidade de uma nova ética

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Daniel Medeiros*

Há 75 anos, o governo Harry Truman decidiu que poderia abreviar a guerra com o Japão jogando sobre o seu território um novo artefato, com um poder destrutivo sem precedentes. E jogou não um, mas dois desses artefatos, sobre Hiroshima e sobre Nagasaki. O resultado foram mais de duzentos mil mortos e uma nova e irreversível realidade: os humanos tornaram-se capazes de destruir a vida no planeta Terra.

A Ética é o ramo da Filosofia que estuda a conduta humana. A condição para a Ética é a necessária reflexão sobre como devemos agir em um mundo no qual não é possível nos eximir da presença das outras pessoas. Aristóteles é uma espécie de “pai” da Ética, pois escreveu o seu “Ética a Nicomaco” para mostrar ao filho como alcançar um estado de espírito pleno, a eudaimonia, em meio às outras pessoas. Para isso, o filho de Aristóteles não podia pensar só em si mesmo, mas no bem comum, na felicidade como algo coletivo. A Ética, portanto, busca a melhor forma de existência comum entre as pessoas.

Kant, no século XVIII, também pensou uma ética para melhorar o mundo, igualmente voltada para a relação com as outras pessoas, condicionando a conduta a um comando que poderia ser resumido assim: “é ético agir se a sua ação puder ser algo que qualquer um também possa fazer, sem prejuízo para os outros.” Kant submete nossa condição de pessoas éticas à nossa própria avaliação racional, sem a necessidade de nenhuma instância superior, metafísica, divina. Somos capazes de agir corretamente a partir de nossa própria avaliação das coisas. Só precisamos fazê-lo.

Todas essas reflexões, porém, centraram-se nos humanos, ignorando os outros seres vivos do planeta, e isso por uma razão simples: não havíamos ainda desenvolvido a capacidade de por em risco as espécies animais e vegetais da Terra. Nosso problema era com a gente mesmo. Mas isso foi antes das bombas atômicas. Quando os cientistas que se uniram em torno do projeto Manhattan e decidiram construir um artefato capaz de liberar uma quantidade tão grande de energia que seria capaz de devastar o planeta, pensavam em proteger o mundo da loucura do nazismo. Parecia nobre a causa e os cientistas acreditaram que poderiam ajudar a paz mundial. No entanto, Hitler caiu sem precisar desse estratagema e Truman resolveu usar as bombas para acabar com a guerra no Pacífico e, ao mesmo tempo, mandar um recado para Stalin. Os cientistas se sentiram traídos mas, enfim, já era tarde.

Pensar uma ética que envolva a natureza, todas as formas de vida, e que permita aos cidadãos comuns controlarem os projetos dos cientistas, parece ser a urgência do nosso tempo. Os avanços da tecnologia – o que ingenuamente chamamos de progresso – parecem legitimar a ação da ciência, como se os cientistas não fossem pessoas com falhas de caráter como qualquer um de nós. Como afirma o filósofo Hans Jonas, a ciência é um exercício do poder humano, e toda forma de ação humana está sujeita a uma avaliação moral. Um mesmo poder pode ser usado para o bem e para o mal. A técnica moderna se traduz enquanto poder humano enormemente aumentado. Daí precisar ser tratada como um caso novo e especial. Cabe ao cientista ter a obrigação em relação à integridade do ser humano do futuro. Dessa responsabilidade se depreenderia que o homem não pode tratar com descuido nem o mundo da vida extra-humana, nem a si mesmo.

As bombas mostraram nosso limite em relação ao quanto a ciência é capaz de colocar-nos em risco. Todos os que virão têm direito a uma vida autêntica, com rios, mares, ar puro e a convivência dos outros seres vivos. É dever de todos nós ensinarmos às futuras gerações para que tenham consciência disso e que possam exigir esse controle. As duas bombas foram recado suficiente para nos alertar. Ou construímos uma nova ética ou um dia o planeta inteiro será Hiroshima, será Nagasaki.

 

* Daniel Medeiros é doutor em Educação Histórica e professor no Curso Positivo.
danielmedeiros.articulista@gmail.com