Combate ao suicídio e os cuidados em tempos de pandemia

A psicóloga e coordenadora da pós-graduação em neuropsicologia clínica da Faculdade IDE, Eliana Almeida, faz um alerta sobre as principais causas que levam uma pessoa tirar a própria vida e como o isolamento social pode piorar este quadro

Combate ao suicídio e os cuidados em tempos de pandemia

Foto: Pixabay

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), nos últimos sete anos a taxa de suicídio no Brasil aumentou 7% a cada 100 mil habitantes, ao contrário dos dados mundiais, que caíram 9,8% no mesmo período. O Ministério da Saúde aponta que cerca de 11 mil brasileiros tiram suas próprias vidas a cada ano. Os dados alarmantes acendem ainda mais a necessidade de cuidar da saúde mental e falar sobre esta triste realidade para combater o suicídio, por isso setembro ficou amarelo e a campanha Setembro Amarelo, organizada pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM), tem o objetivo de prevenir e reduzir as estatísticas dolorosas.

Por muito tempo as pessoas que tinham algum tipo de problema psicológico e que acabavam chegando no extremo de tentar contra a própria vida eram vistas como fracas, mas quem chega a tal ato está movido pela vontade de libertação e a caminhada até a consumação de tais pensamentos é longa e extremamente difícil para estes pacientes. O suicídio vem de um lugar tido como tabu e por muitos anos a temática era silenciada, mas continuar não falando ou julgando o porquê de alguém ter chegado a tal estágio não é nada indicado. É preciso falar e ficar atento com aqueles que já demonstram problemas e buscar se informar sobre fatores que podem trazer esse tipo de situação para poder ajudar quem está ao nosso redor.

“Nem sempre os suicídios estão correlacionados a diagnósticos de transtornos mentais, contudo, muitos fatores externos também se apresentam como importantes, como sentimento de perda significativo (luto, divórcio, rejeição social, bullying, dívidas), discriminação por orientação sexual e identidade de gênero, agressões físicas e/ou psicológicas, relações abusivas na família e no trabalho, doenças crônicas, doenças incapacitantes, crises políticas e econômicas e também pandemias. É importante salientar, contudo, que nenhum destes, por si só, é determinante do comportamento suicida. Exposição a agrotóxicos, também é relatado como possível fator precipitante”, pontua a psicóloga e coordenadora da pós-graduação em neuropsicologia da Faculdade IDE, Eliana Almeida.

Sobre as características suicidas em uma pessoa, a profissional explica que mesmo emergindo a partir de causas diversas e multifatoriais, a insatisfação com as condições de vida atual, bem como a angústia e a desesperança em relação ao futuro são a base dos movimentos suicidas. “Algumas pessoas dão sinais de que pensam em desistir da vida e quem está por perto pode identificar alguns casos. “Sinais são dados em ambientes diversos, mas nenhum deles pode, isoladamente, ser tomado como sinal de risco. A associação entre eles é que os torna mais efetivamente significativos. A grande maioria deles sinaliza que algo não vai bem, mas alguns estão mais estreitamente ligados ao risco suicida”, explica Eliana.

A psicóloga listou como perceber em diferentes ambientes:

 

  • No trabalho: baixo nível de comprometimento e motivação, queda no desempenho, perda de foco, ausências diversas;
  • Entre amigos: desinteresse, apatia, afastamento, rompimento de vínculos significativos, alteração nos padrões de consumo de álcool e drogas. Desta ainda alguns mais diretamente relacionados ao risco de suicídio: comportamentos típicos de despedida, “sinalizar” que não estará presente em momentos significativos para o grupo, mensagens sugestivas nas redes sociais, falta de interesse/motivação para comemorar aniversário;
  • Em casa: comentários autodepreciativos, significativa alteração da percepção da realidade sendo sempre desfavorável a si mesmo, mudança de hábitos de alimentação (com ou sem perda de peso), sono, higiene, irritabilidade, apatia, isolamento, choro fácil. Alguns mais diretamente relacionados ao risco de suicídio: menção a morte ou suicídio, doações fora dos padrões normais, sobretudo se for de objetivos de estimação. Nos adultos, desejo de organizar documentos, como procedimentos bancários e inventários.

A família sempre vai ser fundamental para identificar e ajudar o paciente. “É muito importante pontuar o quanto a percepção da família é impactada pelos relacionamentos afetivos e pela sobrecarga que muitas vezes está associada ao comportamento que pode levar ao suicídio. Muitas vezes, os desgastes afetivos e relacionais provocam também alterações perceptivas por parte dos familiares”, explica a docente que reforça a importância dos familiares ficarem atentos aos diversos sinais que são dados dentro de casa durante o convívio diário. Salienta ainda que não é sempre que alguém que atentou contra a própria vida falou sobre a sua vontade antes, porque dar ou não sinais prévios depende muito do que motivou esta pessoa a chegar a tal ponto.

“Muitos suicídios são motivados por fatores passionais e relacionais, como fins de relacionamento, descobertas de traição, de adoção, decepções, culpas e desejos de culpabilizar. A orientação sexual também está entre os motivos. No caso de adolescentes, são ainda mais frequentes atos suicidas disparados por impulsividade. Nestes casos, não há o desejo de morte expresso anteriormente. Nos casos em que há distúrbios mentais e transtornos de humor associados, sinais são dados antes do ato consumado. Inclusive, quando o suicídio acontece em situações como esta, muitas tentativas anteriores já haviam sido feitas. Sempre devemos ficar atentos quando algo não vai bem e alguém faz os seguintes comentários: “eu não aguento mais”, “eu só queria sumir”, “vou desaparecer”, “vou deixar vocês em paz”, “eu só queria dormir e nunca mais acordar”, “eu preferia estar morto”, “eu realmente não sirvo para nada mesmo”, “é inútil fazer algo para mudar”, “não há mais nada que eu possa fazer”, explica.

O estilo de vida que a pessoa leva também deve ser observado, como aquelas pessoas que consomem algum tipo de droga. “Muitas vezes, a própria ‘atmosfera de consumo’ da droga já é, por si só, deprimente/underground: o uso, os comportamentos associados, os estigmas sociais associados, os conceitos e os preconceitos. As drogas mais comumente usadas pelos jovens, álcool e maconha, em si, são depressoras do sistema nervoso central e favorecem uma alteração da percepção da realidade, que, para grande parte dos usuários, já não é favorável. Além da condição de vulnerabilidade em que os colocam”, esclarece a psicóloga.

Pandemia e o suicídio

Segundo um estudo da Universidade de Oxford, no Reino Unido, um a cada 16 pacientes podem desenvolver doenças mentais, principalmente ansiedade e demência, após infecção pelo vírus Covid-19 e o risco aumenta duas vezes mais para pacientes que precisam ser hospitalizados. A situação tem trazido estes e outros problemas que tem piorado ainda mais a saúde mental das pessoas e podem chegar a ser um gatilho para o suicídio até mesmo naqueles que não tinha tais pensamentos. “’Cabeça vazia é oficina do diabo’. Este é um ditado antigo, mas pertinente sobretudo para quem não está conseguindo dar um rumo ao seu dia e aos seus afazeres. Há grande chance de evoluir com pensamentos negativos e de desesperança. Além disso, uma série de fatores contextuais que têm poder para desencadear sofrimento psíquico estão em curso: conflitos parentais, conflitos conjugais, uso abusivo de álcool e drogas, violência doméstica, desemprego, falência de empresas, luto por perda de entes queridos, medo de contaminação, negligência em relação a problemas de saúde por medo de contaminação”, esclarece a profissional de psicologia.

Diante de todos estes problemas, o aumento dos casos de suicídio preocupa. “O atendimento de chamados pelo SAMU-SP referente a tentativas e casos de suicídio aumentou bastante durante a pandemia coronavírus. Em Uberlândia-MG, foram registradas 22,5% mais chamadas nos cinco primeiros meses deste ano. O Journal of the American Medical Association – Psychiatry, em abril, nos Estados Unidos também notificou preocupação em relação a este aumento. As classes C e D foram as mais afetadas. Os relatos apontam os principais fatores associados a este aumento: falta de diálogo dentro de casa, convivência integral em residências muito pequenas. Incerteza pela covid e solidão provocada pelo isolamento social. Estresse econômico, incerteza pela própria subsistência, desconexão social, dificuldade no tratamento da saúde mental, medo diante de doenças pré-existentes, ansiedade frente ao risco de contaminação”, explica a docente da Faculdade IDE.

Os familiares e amigos precisam estar atentos e abertos para ajudar quem demonstra não estar bem em meio a este turbilhão de sentimentos que a pandemia trouxe. “O momento é muito mais desafiador para todos. Incertezas, insegurança, dificuldades reais em relação a manejo da vida como um todo: saúde, trabalho e relacionamentos, além da sobrecarga de convívio familiar muitas vezes desagradável. Para todos, o convite é a flexibilização: buscar novas formas de viver, conviver, realizar”, instrui a Eliana.

Os idosos, que fazem parte do grupo de risco para a Covid-19, encontram ainda mais desafios e os maus pensamentos podem aparecer ainda mais. “Não podemos esquecer a triste e preocupante estatística apontada pelo Ministério da Saúde: pessoas com idade acima dos 70 anos são as que mais cometem suicídio no Brasil. Esse público requer atenção redobrada. Se o idoso morar sozinho e não tiver família por perto, mais atenção ainda é necessária. Essas pessoas precisam ser solidariamente acolhidas e suas necessidades básicas atendidas. Ter quem ajude para que evitem exposições ao risco e verificar frequentemente se está tudo bem. As famílias precisam ser bem conscientes de que não podem deixá-los por conta própria, achando que são autossuficientes. Ninguém é, ainda mais num cenário como este”, atenta a profissional.

“Já para os idosos que vivem com suas famílias, é muito importante a inclusão deles na rotina e nas atividades da casa. Estimulação cognitiva ecológica e lúdica são também muito importantes. Se houver possibilidade segura, é importante que a família favoreça que o idoso tome um banho de sol nos horários apropriados (antes das 10h ou depois das 16h). Ter disponibilidade para ouvi-los é também muito importante para eles”, aconselha Eliane sobre como podemos ajudar os idosos que vivem conosco.

Como lidar com quem já tentou tirar a própria vida

“Em primeiríssimo lugar, não negligenciar a importância de que seja dado o tratamento adequado (psiquiátrico e psicológico). E além disso, é muito importante também a abertura para o diálogo franco, aberto, sem julgamento. Buscar compreender qual é a ‘dor oculta’ é o grande desafio, por isso é tão importante a abertura para o diálogo. Ouvir, compreender, expressar respeito, cuidado. Ampliar a rede de apoio que sustenta e que permite desabafo e choro, seja ela qual for: família, amigos, vizinhos, igreja, serviços especializados, trabalho. E, ao mesmo tempo, restringir acesso a mecanismos que facilitem novas tentativas: armas, objetos cortantes, remédios, venenos… são alguns dos que podem ser restritos. Telas nas janelas para quem mora em apartamento também é uma medida protetiva. Todos estes são elementos que têm potencial para evitar as tentativas impulsivas, mas… quando a pessoa está realmente motivada a acabar com a própria vida, ela é capaz de driblar qualquer uma destas medidas. De todas as formas de tentar evitar o suicídio por parte da família, a expressão de cuidado, atenção e o apoio dado para minimizar a fonte estressora, são as melhores medidas”, orienta a psicóloga.

Prevenção do suicídio

O ponto mais importante para evitar este mal é cuidar da saúde mental. “A saúde mental é, sem dúvida alguma, um bem muito precioso. Na grande maioria dos casos, 96,8% dos casos de suicídio estão associados a diagnósticos de transtorno mental, segundo dados da Associação Brasileira de Psiquiatria e a Organização Mundial da Saúde”, conta Eliana que também considera o tratamento como uma das formas principais de prevenção: “Tratar do assunto abertamente e evitar julgamentos. Lidar com a situação de forma adequada: clinicamente. Medicação e acompanhamento psicológico. Apoio familiar. Busca de alinhamento de vida por parte da pessoa em sofrimento”.

“O trabalho de Autoconhecimento é um forte aliado. Quando a pessoa se conhece melhor e ela tem melhores condições de identificar quais são os elementos da vida (pessoais, contextuais ou circunstanciais) que estão provocando maior sofrimento. Ela consegue então, a partir desta clareza, encontrar alternativas melhor para uma vida mais satisfatória. Rede de apoio sustentável é também fundamental: clínico, familiar e social. Encontrar a “raiz” do sofrimento é a busca mais preciosa. É pela raiz que o mal precisa ser cortado”, instrui.

Quando os primeiros pensamentos aparecem é preciso ter algumas atitudes. “Dar atenção ao pensamento e se abrir para o diálogo, não negligenciar, se colocar disponível para falar sobre o assunto, buscar ajuda e dar encaminhamento ao tratamento necessário, olhar para a vida e ver o que pode estar gerando a angústia e o desconforto, não se acomodar a situações e relacionamentos tóxicos e agir de forma a buscar rotina e relacionamentos mais saudáveis, buscar formas de ir lidando (mesmo que não de forma totalmente satisfatória, num primeiro momento), com os aspectos da vida. As Redes de Apoio Sustentáveis (aquelas em que a pessoas se sente à vontade para desabafar, seja quem for), são fundamentais. Caso não haja ninguém com quem conversa, buscar serviços especializados como o Centro de Valorização da Vida (CVV) é uma possibilidade valiosa. O CVV é uma organização que atua na prevenção ao suicídio. Nesta organização, voluntários capacitados prestam serviços de apoio emocional 24 horas por dia, com garantia de sigilo”, conta.

Para evitar tais atos, o paciente também pode se ajudar. “Manter os acompanhamentos clínicos, remotamente. Tanto quanto possível, evitar o isolamento dentro da própria casa. Tanto quanto possível, buscar manter uma rotina que favoreça a saúde do corpo: vitaminas, banho de sol, alimentação, atividade física. Evitar ou reduzir o consumo de álcool e drogas. Ao mesmo tempo, buscar se manter em relação com amigos e familiares (principalmente, os relacionamentos não tóxicos). Mas não podemos ser ingênuos: tudo isso muito difícil para quem está vivenciando uma batalha interna pela vida”, finaliza pontua a psicóloga e coordenadora da pós-graduação em neuropsicologia da Faculdade IDE, Eliana Almeida, sobre como prevenir o suicídio.

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