Mapa não é território / Por Wanda Camargo

Naquele Império, a arte da Cartografia alcançou tal perfeição que o mapa de uma única província ocupava uma cidade inteira, e o mapa do Império uma província inteira. Com o tempo, estes mapas desmedidos não bastaram e os Colégios de Cartógrafos levantaram um Mapa do Império que tinha o tamanho do Império e coincidia com ele ponto por ponto.”

Jorge Luís Borges – Sobre o rigor na Ciência.

 

A Neurolinguística é comumente definida como “ciência que estuda a elaboração cerebral da linguagem”. Em princípio, trata-se do estudo dos mecanismos do cérebro humano destinados ao conhecimento abstrato da língua, falada ou escrita.

Um dos seus pressupostos diz que “o mapa não é o território”, ou seja, relembra que ter a representação genérica de um percurso não nos conta sobre o sol, a chuva, alegrias, tristezas, os demais seres humanos ou animais que nele encontraremos, e que podem alterar de forma as vezes extrema o que planejamos anteriormente. Para este propósito o mapa imaginado por Borges talvez fosse o único realmente fidedigno.

Isso também revela que cada um de nós tem percepção da realidade distinta dos demais, e tende a ver somente o que escolhe ver, pois durante a maior parte do tempo estamos ocupados com projeções da realidade interna, vendo no entorno aquilo que, na realidade, está em nós mesmos, e não no outro.

Nesta teoria, grande parte dos conflitos não existem em uma realidade objetiva, e sim na mente das pessoas, criados pelas emoções e nossa incapacidade de lidar com elas. Assim é que muitos odeiam no próximo aquilo que na verdade tentam escamotear em si mesmos, pois normalmente não reagem ao mapa alheio, mas sim aos seus próprios mapas, ou seja, ao que é realidade para elas.

As formas peculiares pelas quais pensamos podem ser analisadas, para assim entendermos porque em algumas circunstâncias conseguimos “pensar de forma positiva”, ou “manter a calma”, ou agirmos de forma a termos domínio pessoal de certas situações. A relação entre a forma como nos expressamos, as palavras que utilizamos e o comportamento que apresentamos é estreita, para mudar um deles é indispensável mudar os outros dois, o que nesta teoria é sempre possível, embora dependa de um certo empenho.

Autoajuda confunde-se, talvez legitimamente, com autoengano; o princípio é de que se acreditarmos já termos atingido determinado objetivo nós o conquistaremos. Pelo menos, muitos autores e “coachs” o conseguem para si mesmos, através da venda de livros e palestras. 

No entanto, o verdadeiro trabalho de autoaperfeiçoamento não é assim tão simples, demanda resiliência e foco, pois algumas atitudes, modos de falar e relacionar-se com os demais formam características identificadoras tão fortes que mesmo aqueles que convivem desagradavelmente com estes aspectos de nossa personalidade tendem a reagir às demonstrações de mudanças, sempre tememos o desconhecido. Embora muitos confiem apenas nas suas religiosidades para a obtenção de uma nova postura, exemplos recentes nos mostram que são muitos os discursos moralizantes, porém poucas práticas reais de vivência na solidariedade e empatia.

O que denominamos programação neurolinguística seria adequado, portanto, para solucionar conflitos, permitir maior conhecimento de si próprio, facilitando uma melhor convivência com os demais, superar as ansiedades e inseguranças. Reconhecer nossos padrões linguísticos e comportamentais traz, com certeza, uma reestruturação de nossa experiência subjetiva, que na verdade é a finalidade de todos processo educativo.

Toda escola, ao inserir o educando numa realidade comunitária, de regras a serem estabelecidas e obedecidas pelo grupo, propicia o conhecimento dos limites de cada mapa, o estabelecimento das fronteiras dos territórios alheios, o contato saudável com a realidade do mundo e não apenas com uma projeção otimista ou pessimista dela. 

 

Wanda Camargo – educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil – UniBrasil.