Pandemia de Covid-19 trouxe impacto significativo em pessoas com transtornos alimentares, diz estudo

Publicado em 24 de agosto no Journal of Eating Disorders, estudo diz que pandemia trouxe profundo impacto negativo em nove de dez pessoas com transtornos alimentares no mundo. Por aqui, avanço do fast-food nos meses de quarentena sugere que a dieta do brasileiro piorou

Pandemia de Covid-19 trouxe impacto significativo em pessoas com transtornos alimentares, diz estudoO prato do brasileiro mudou durante o confinamento com a pandemia do Novo Coronavírus. Segundo o Ministério da Saúde, quase metade dos brasileiros afirmou ter mudado os hábitos alimentares durante o confinamento. No mundo, um novo estudo, publicado em 31 de agosto no Journal of Eating Disorders, mostrou que a pandemia Covid-19 está tendo um impacto profundo e negativo em nove entre dez pessoas com experiência de transtornos alimentares. A pesquisa foi feita pela Northumbria University, de Newcastle, na Inglaterra. “Houve um crescimento muito forte nos pedidos de delivery e, em virtude da pandemia, as idas ao mercado tornaram-se menos frequentes. Muitas pessoas optaram por fazer estoques de alimentos ultraprocessados em detrimento de alimentos in natura, o que provocou uma piora do valor nutricional das refeições. Além disso, a ansiedade, característica desse período, tem forte influência nos transtornos alimentares e muitas pessoas se viram com mais alimentos hiperpalatáveis à disposição na despensa, o que é um gatilho importante para os transtornos alimentares”, afirma a médica nutróloga Dra. Marcella Garcez, professora e diretora da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN).

Esse é o primeiro grande estudo sobre impacto da pandemia nessa população. Embora seja evidente que o surto Covid-19 está tendo um efeito significativo na população global, pesquisas realizadas por acadêmicos do Departamento de Psicologia da Northumbria mostraram que a pandemia levanta desafios adicionais e únicos para indivíduos com transtornos alimentares. “O transtorno mais comum durante o isolamento é a compulsão alimentar periódica, que pode evoluir para bulimia nervosa e a principal causa é a ansiedade do momento atual. O período de pandemia é uma situação atípica e inusitada, que impacta diretamente as reações emocionais das pessoas que estão mais ansiosas, preocupadas e com medo e por não haver perspectivas de quando essa situação irá acabar, todos estão mais susceptíveis a apresentar distúrbios psicológicos, psiquiátricos e alimentares”, afirma a médica.

O estudo surgiu após apelos da comunidade científica para investigar as consequências da pandemia para a saúde mental para grupos vulneráveis, como os idosos e aqueles com problemas de saúde mental graves, incluindo aqueles com experiência vivida de transtornos alimentares. Além de aumentar a conscientização sobre o impacto da pandemia para as pessoas afetadas por transtornos alimentares, os resultados têm o potencial de influenciar futuras disposições, orientações e políticas de serviços de saúde. O artigo será publicado online no Journal of Eating Disorders na segunda-feira, 24 de agosto.

De acordo com a nutróloga, os resultados sugerem que interrupções na vida diária como resultado de bloqueio e distanciamento social podem ter um impacto prejudicial no bem-estar de um indivíduo, com quase nove em cada dez (87%) dos participantes relatando que seus sintomas pioraram como resultado da pandemia. Mais de 30% afirmaram que seus sintomas eram muito piores.

O estudo aponta que a pandemia trouxe impactos prejudiciais sobre o bem-estar psicológico, incluindo diminuição da sensação de controle, aumento da sensação de isolamento social, aumento da ruminação sobre distúrbios alimentares e baixa sensação de apoio social. “A pesquisa destacou que os efeitos negativos podem ser devidos a mudanças nos indivíduos, como rotina regular, situação de vida, tempo gasto com amigos e familiares, acesso a tratamento, prática de atividade física, relacionamento com a alimentação e uso de tecnologia”, diz a médica.

Um dos maiores desafios enfrentados pelos pesquisados foi a redução na oferta de serviços de saúde. Alguns relataram alta prematura das unidades de internação, suspensão do tratamento ou permanência na lista de espera para atendimento e apoio pós-diagnóstico limitado. A redução na prestação do serviço fez com que alguns participantes relatassem se sentir um “fardo”, um “incômodo” e “esquecido” pelo governo. “As consequências de não ter acesso a tratamento profissional para transtornos alimentares durante a pandemia podem ser graves, fazendo com que as condições de algumas pessoas se tornem muito piores e, em alguns casos, podem ser fatais”, afirma a médica.

A cobertura da mídia e as postagens nas redes sociais também foram citadas como fonte de ansiedade devido à preocupação da população em geral com alimentação, ganho de peso e exercícios. Os autores enfatizaram que, embora mensagens positivas sobre dieta e exercícios possam ser benéficas para a maioria da população, é importante para a saúde e o governo reconhecer que essas mensagens também podem ser desencadeantes ou perturbadoras para as populações vulneráveis a transtornos alimentares. “Os transtornos alimentares apresentam grandes diferenças clínicas entre eles, porém a abordagem terapêutica busca restaurar o comportamento alimentar adequado, com o objetivo de tirar o indivíduo do desequilíbrio clínico que a gravidade dos sintomas pode gerar. Por serem quadros de extrema complexidade, os transtornos alimentares muitas vezes requerem um tratamento realizado por equipe multiprofissional que compreende, além do médico nutrólogo, psiquiatra, psicólogo, nutricionista e educador físico”, finaliza a médica.

FONTE: *DRA. MARCELLA GARCEZ: Médica Nutróloga, Mestre em Ciências da Saúde pela Escola de Medicina da PUCPR, Diretora da Associação Brasileira de Nutrologia e Docente do Curso Nacional de Nutrologia da ABRAN. A médica é Membro da Câmara Técnica de Nutrologia do CRMPR, Coordenadora da Liga Acadêmica de Nutrologia do Paraná e Pesquisadora em Suplementos Alimentares no Serviço de Nutrologia do Hospital do Servidor Público de São Paulo. 

LINK: https://jeatdisord.biomedcentral.com/articles/10.1186/s40337-020-00319-y

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