A cultura do cancelamento e a liberdade de expressão / Por Wanda Camargo

Ataques cibernéticos ao Tribunal Superior Eleitoral nesta última eleição, mesmo não tendo conseguido interferir no resultado das urnas, tentaram derrubar, sem sucesso, o sistema de totalização de votos. A intenção óbvia de provocar impacto e sensação de fragilidade do sistema, seguramente por parte de milícias digitais e grupos extremistas, é sintoma sério do ambiente de ódio e politização, no mau sentido, em que estamos imersos.

Ultimamente tornou-se relativamente comum a interrupção propositada, por parte de grupos organizados que se creem detentores da verdade universal sobre determinados temas, das lives sobre alguns assuntos como direitos das minorias, representatividade feminina em certos setores, campanhas de candidatos em processos eleitorais identificados com causas denominadas progressistas, entre outros.

Algumas destas intervenções são acompanhadas de declarações chulas, imagens pornográficas, palavras de ordem inconvenientes; o que constrange e intimida os organizadores e também os participantes dos eventos, que hoje, dada a pandemia, representam a única forma de contato possível entre pessoas que gostariam de compartilhar/divulgar algumas propostas, com a civilidade necessária mesmo para aqueles que não comungam das mesmas opiniões.

Um artigo publicado em qualquer mídia enseja o ataque imediato ao autor, com acusações muitas vezes aleatórias e sem estrita correspondência com o conteúdo do texto, refletindo mais a oportunidade de expor os conceitos do agressor – eventualmente um pouco desconexos – e cancelamento de outros pontos de vista, que uma verdadeira discussão sobre os tópicos expostos.

No recente caso de controvérsia sobre assunto delicado, envolvendo o julgamento de um acusado de estupro, repetiu-se aquilo a que assistimos quase sempre: a vítima foi posta no banco dos réus, com conivência daqueles que deveriam ter sido julgadores isentos, e após o fato as paixões se acenderam em ambos os lados do campo de batalha – pois transformou-se numa guerra de narrativas – restando aos expectadores mesmerizados uma reflexão sobre a liberdade de expressão.

Colunistas de vários veículos se manifestaram, nem todos com a necessária polidez e cautela exigida pelo tema que afinal envolvia ser humano em situação de fragilidade, destilando algum fel em péssimas e superficiais análises, explodindo testosterona e preconceitos; hostilidades  no comportamento de juristas e jornalistas que em nada auxiliam o aperfeiçoamento civilizacional.

Lamentavelmente estas atitudes parecem inspiradas por nossos dirigentes nacionais, constituídos na maioria por pessoas de poucas luzes, desaforados nas expressões que refletem seu limitado alcance intelectual, tendo por guia um pretenso astrólogo de palavreado obsceno, e que manifestam rispidez e inadequação em relação a mulheres, negros, crianças e população LGBTQ+, falando inclusive em pronunciamentos formais o que vem à cabeça, sem o menor cuidado cognitivo de preparo e lógica, em nome de uma alegada “sinceridade”, dando ordens e contraordens diárias, e um péssimo exemplo.

As pautas defendidas pelas milícias, tanto as físicas, compostas muitas vezes para a nossa vergonha por policiais que deveriam defender a paz e a ordem, quanto as digitais, protegidas pelo anonimato para praticar suas violências, algumas sob suspeita de ligação com autoridades de grande expressão na vida pública, são perigosas, racistas, xenófobas, misóginas, homofóbicas.

Abrir o jornal ou acessar plataformas noticiosas diariamente é constatar o festival de sandices e deselegâncias instalado no país, exercício de desgosto com a pouca (ou nenhuma) educação formal ou informal de nossos representantes, que se alastra entre uma certa camada da população que esperávamos esclarecida, e capazes de distinguir entre liberdade de expressão e licença para injúria. Sinceridade não se confunde com calúnia.

O reinado da barbárie se instalou, puxado pelas redes sociais, atingiu nosso dia-a-dia, nossos relacionamentos interpessoais e até nosso senso de humor, que jamais esteve tão ríspido e impertinente quanto agora. Está faltando um pouco de educação, no estrito sentido do termo.

 

Wanda Camargo – educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil – UniBrasil.