“Não há racismo no Brasil”

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Já era madrugada do dia 26 de outubro de 1970. Maracanazinho lotado. Mais de 25 mil pessoas. Programa transmitido pela TV Globo para todo o Brasil. Era a final do V Festival internacional da Canção e o locutor chama ao palco o cantor, compositor e maestro Erlon Chaves, que presidia o júri popular, para cantar o hit de Jorge Ben Eu só quero Mocotó, acompanhado pela Banda Veneno e pela orquestra regida pelo extraordinário Rogério Duprat. Plateia de pé. Aos poucos, o palco é também ocupado, primeiro por seis e depois mais seis lindas moças brancas, loiras, com biquinis e maiôs cor da pele, e elas então começam a formar um círculo em torno do cantor negro, que mesmerizava o público com o refrão hipnótico da música. Ao final, Erlon dá uma bitoca, um selinho, em cada uma das moças, que saem sorridentes e saltitantes do palco. Público em delírio. Erlon Chaves diz: “todas as moças da plateia, sintam-se beijadas por mim.” Havia muitas esposas de militares na plateia.  Fim do ato. Início da tragédia.

Telefones tocam sem parar. Até o ditador de plantão, o general Médici, é acordado. “Vocês viram o que aquele negro safado fez”? “E o que ele disse”? “É uma afronta!” Agitam-se as esposas dos militares que formam uma corrente de rebeldia contra o negro que beijou uma dúzia de moças brancas em pleno palco, para todo mundo ver. “E as famílias, as crianças, o que vão pensar disso?”

A polícia federal entrou em ação e recolheu o músico , levando-o para suas dependências. Para prestar esclarecimentos da “ofensa” que praticou. O já poderoso José Bonifácio de Oliveira, o Boni, teve de ir também, mas foi logo liberado. Erlon Chaves só saiu 4 horas depois.

No dia seguinte, 27 de outubro, o jornal O Globo, em editorial chamado Abuso de Confiança, joga o cantor e compositor às feras: dezenas de milhões de telespectadores, além das milhares de pessoas que se encontravam no Maracanãzinho, foram surpreendidos com a incrível demonstração de mau-gosto e licenciosidade oferecida pelo maestro Erlon Chaves no espetáculo de encerramento do Festival Internacional da Canção.

A polícia voltaria a prendê-lo, mantendo-o, dessa vez, vários dias incomunicável. Segundo o próprio cantor, não houve violência física, mas ele foi esculachado pelos militares inconformados com a sua “safadeza”. “Folgado”, “negro folgado”, ouviu várias vezes Erlon Chaves, ele que havia namorado Vera Fisher, ele que era rico e famoso,  para o inconformismo dos seus acusadores. “Negro folgado”.

Por causa da sua atitude “de mau gosto”, Erlon Chaves foi proibido de realizar qualquer atividade artística por um mês. E, mesmo depois, muitos de seus shows foram cancelados. Ficou marcado. Sua carreira estava destruída. Cantar podia, usar roupas extravagantes até era admitido. Mas namorar moças brancas e, pior, beijá-las no palco, isso a família tradicional brasileira nunca admitiria. Passou de todos os limites. Por que não fazia como Pelé, que era negro, famoso, mas “comportado“?

O V Festival da Canção foi vencido por outro negro, Toni Tornado, com a música BR-3. Toni Tornado, outro negro “extravagante”, logo foi acusado de fazer apologia à droga. BR-3 seria a veia na qual se injeta a droga. A expressão Cristo em aço, que aparece na letra, seria a seringa. Toni ri e explica: BR-3 é a estrada que liga o Rio a Belo Horizonte, e que era pessimamente pavimentada, por isso era uma rodovia da morte. Na entrada de Juiz de Fora, no morro do Imperador tem uma estátua de Cristo. Era só isso. Mas, para seus detratores, não era.

No ano seguinte, durante uma apresentação de Elis Regina, Toni, convidado a subir no palco, fez o gesto dos Panteras Negras, o braço estendido, a mão cerrada. Foi preso ali mesmo, algemado e deportado para a Tchecoeslováquia.

Elis Regina estava cantando a música “black is beautiful”.

 

*Daniel Medeiros é doutor em Educação Histórica e professor no Curso Positivo.
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@profdanielmedeiros