O Câncer não Espera: Avanços no tratamento, robótica e efeitos da Covid-19 foram centro dos debates em Simpósio Internacional

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Imunoterapia e mapeamento genético também estiveram em destaque; Cirurgias não-invasivas com uso de robôs foram transmitidas ao vivo para a comunidade médica

 

Assim como todo o ano de 2020, a 8ª edição do Simpósio Internacional Oncoclínicas, que aconteceu nos dias 19 e 20 de novembro, foi desafiadora: para viabilizar um encontro com mais de 5 mil participantes de todo o país, o evento, com acesso gratuito e aberto a profissionais de saúde em geral, se valeu amplamente da tecnologia de realidade virtual usada em games para trazer o toque de experiência ao formato de encontro em tempo real sem contato físico. Por meio de seus dispositivos conectados à internet, eles participaram de 200 aulas ministradas por 250 palestrantes, incluindo mais de 20 internacionais, todas online, além da realização de cirurgias ao vivo – a primeira vez no mundo em que um evento médico trouxe a transmissão concomitante de seis procedimentos como estes.

 

Tudo para acompanhar os avanços no tratamento de câncer, que não são mais sonhos para o futuro, mas realidade, como enfatizou o oncologista Bruno Ferrari, fundador e presidente do Conselho de Administração do Grupo Oncoclínicas:

 

“Nosso objetivo com o simpósio, e como filosofia dentro da Oncoclínicas, é transmitir o melhor conhecimento possível para a comunidade médica. Nós acreditamos que só assim conseguiremos evoluir no combate ao câncer”, explica.

 

E em um período que vem exigindo dos profissionais de saúde tomadas de decisão ainda mais aceleradas tanto na linha de frente de combate à Covid-19 quanto de inúmeras outras doenças que não podem ter seus tratamentos adiados, como é o caso do câncer, o compartilhamento de conhecimento e a troca de experiências multidisciplinares provaram ser pilares essenciais para assegurar as melhores práticas assistenciais. “Educação médica continuada é tudo. Mesmo no contexto da pandemia, temos que conseguir disseminar essa educação não só para oncologistas, mas para equipes multidisciplinares e cirurgiões. E a tecnologia é e continuará sendo aliada”, reforça Bruno Ferrari.

 

Para Carlos Gil Ferreira, presidente do Instituto Oncoclínicas, o formato online permitiu que um volume ainda maior de especialistas de todo o país tivessem acesso a informações de alta qualidade para promoção de condutas ainda mais assertivas de tratamento do câncer, sempre com foco no bem estar do paciente. “A plataforma digital não veio só para democratizar a educação, mas também para aumentar a assistência. Nossa Comissão Científica desenvolveu uma programação com conteúdos consistentes e interessantes, que foram ministrados de forma dinâmica, priorizando o engajamento e integração dos congressistas. Com isso, temos um arsenal de conhecimento imenso para combatermos da melhor maneira as doenças oncológicas”, pontua.

 

Os especialistas lembram que o câncer é a segunda causa de morte em todo o planeta, ficando atrás apenas das doenças cardiovasculares, mas com tendência de assumir a liderança deste ranking até 2025, quando deverá ser responsável por 6 milhões de falecimentos no ano. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), atualmente 43,8 milhões de pessoas no planeta vivem os cinco anos de prevalência da doença, sendo que 1,3 milhão delas estão no Brasil. E considerando apenas as estimativas de novos casos previstos pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA), até o final de 2020 outros 625 mil brasileiros devem compor a soma de pessoas diagnosticadas com câncer.

 

Confira abaixo as principais notícias que o 8° Simpósio Internacional Oncoclínicas apresentou sobre o panorama da oncologia em meio à pandemia e o que há de mais recente na luta contra os tumores malignos:

 

  • Impactos do Coronavírus: antes e depois

 

Os impactos no novo coronavírus para diagnóstico e tratamento de tumores malignos esteve de fato no centro de muitos debates. Entre março e junho, segundo pesquisa das Sociedades Brasileiras de Patologia (SBP) e Cirurgia Oncológica (SBCO), mais de 70 mil diagnósticos de câncer deixaram de ser realizados no país por conta da pandemia.

 

“Estamos frente a uma possível segunda onda da pandemia. Não podemos esquecer que ainda estamos vivendo uma pandemia e que precisamos manter os cuidados. Pessoas estão sendo contaminadas ainda e muita gente está morrendo por conta dessa doença. A boa notícia é que o setor da saúde como um todo, público e privado, está mais preparado para enfrentar os novos desafios que estão por vir. Já sabemos os mecanismos e o que é preciso para que as pessoas consigam se preservar e, ao mesmo tempo, como orientá-las para que não deixem de fazer seus exames, essenciais para o diagnóstico precoce do câncer, e sigam tratando doenças previamente detectadas”, explica Bruno Ferrari.

 

Segundo ele, um dos legados da pandemia está na expansão da prática médica para além dos consultórios, com o uso da telemedicina, por exemplo, que evitou e, principalmente orientou, os pacientes sobre quando procurar uma instituição de saúde e como fazer da maneira mais segura possível.

 

Mas os aprendizados não se restringiram ao entendimento dos mecanismos que levam à contaminação pelo novo vírus e ao estabelecimento de alternativas de fluxos seguros para pacientes. A experiência dos palestrantes e audiência que atuam na linha de frente dos cuidados oncológicos em diferentes centros do Brasil e do Mundo trouxe dados relevantes sobre os mecanismos do coronavírus em pacientes oncológicos contaminados.

 

“O que a nossa vivência, de forma geral, mostra é que pacientes oncológicos sem outros fatores de risco associados – imunossupressão, idade, fumantes, obesidade, diabetes e/ou hipertensão, entre outros – respondem à COVID-19 da mesma forma que o restante da população global exposta à doença. Ou seja, o câncer em si não representou chances de pior prognóstico. Nos casos daqueles mais debilitados ou que apresentam uma ou mais comorbidades, houve todavia tendência a desenvolver formas mais severas do vírus e seus consequentes reflexos na piora do quadro geral”, conta Bruno Ferrari, que lidera uma frente de pesquisas para geração de dados sobre este tema.

 

 

  • Robôs no suporte às cirurgias

 

Procedimentos cada vez menos invasivos, que incluem o uso da tecnologia robótica, foram mostrados durante as cirurgias transmitidas ao vivo durante o simpósio. Elas fazem parte do arsenal de alternativas que melhoram a qualidade de vida dos pacientes.

 

Segundo Bruno Ferrari, entre as intervenções inovadoras que foram transmitidas para os médicos, a cirurgia para retirada de tumor de tireoide foi um dos destaques. O procedimento é feito a partir de uma técnica ainda pouco conhecida, que consiste na retirada do tumor por meio endoscópico, sem a necessidade de cortes na região do pescoço.

 

“O que vimos no simpósio foram procedimentos cirúrgicos inovadores que já fazem parte da nossa realidade: eles são minimamente invasivos e muito eficientes: você ganha com a diminuição do tempo de internação, de exposição a infecções e aumenta o tempo de recuperação daquele paciente”, diz o médico.

 

Para a cirurgiã torácica Paula Ugalde, coordenadora de cirurgia do Simpósio, a fusão da tecnologia com a medicina trouxe avanços vistos no diagnóstico e tratamento. E no caso das intervenções cirúrgicas, as práticas minimamente invasivas estão conquistando espaços importantes nas condutas oncológicas. “O Brasil é um dos países que têm mais robôs cirúrgicos nas Américas, a gente só perde para os EUA. Quando utilizamos essas técnicas modernas para operar os pacientes, estamos garantindo um resultado final positivo não só do ponto de vista da retirada do tumor como da recuperação pós cirúrgica. O resultado final para o paciente é excelente”.

 

 

  • Genômica: essencial e cada vez mais presente no combate ao câncer

 

A individualização da linha de cuidado integral, desde o diagnóstico mais preciso até a definição da conduta de tratamento mais indicada, tende a ditar o tom para o tratamento de câncer agora e nos próximos anos. “Com o rastreamento do genoma e do DNA desses tumores, conseguimos saber suas particularidades e assim, encontrar a melhor forma de combater o seu avanço. E isso tem sido feito e os avanços nesses mapeamentos acontecem todos os dias, coletamos informações clínicas e genéticas para construirmos a base da inovação científica”, conta Rodrigo Dienstmann, diretor científico da Oncoclínicas Precision Medicine.

 

E se o diagnóstico precoce do câncer segue sendo o jeito mais efetivo de garantir melhores chances de respostas às terapêuticas aplicadas, a chamada oncologia de precisão traz respostas assertivas para que a medicação adotada atinja o alvo com grande acurácia, sob medida para as características da doença de cada indivíduo. “Isso significa que, com a ajuda da análise dos biomarcadores tumorais, ou seja, das alterações genéticas identificadas nas células daquele tumor específico e que trazem importantes informações para nos ajudar a desvendar o mecanismo da doença de acordo com cada caso de forma personalizada, podemos oferecer as melhores alternativas de tratamento em prol da qualidade de vida do paciente”, ressalta o especialista.

 

 

  • Imunoterapia avança para outros tratamentos

 

A ciência como aliada da prática médica se aplica ainda ao desenvolvimento de medicações cada vez mais personalizadas. Neste sentido, Carlos Gil enfatiza a ampliação do uso da imunoterapia no tratamento de mais tipos de câncer. Segundo ele, a técnica consiste em fortalecer certos aspectos da imunidade do paciente para que o próprio corpo combata o tumor. A verdadeira “arma secreta” contra o câncer, diz ele, está em nós mesmos:

 

“Os imunoterápicos já são parte da nossa realidade e tendem a se aperfeiçoar e ganhar espaço. Há cerca de dois anos esse tipo de medicação era usada apenas em alguns poucos casos de câncer, como o melanoma – tipo de câncer de pele -, mas agora ela já tem sido recomendada para tipos de tumores nas mamas, nos rins, gastrointestinais, pulmão, leucemia, linfoma e sarcoma. E não deve parar por aí”, destaca.

 

  • Universalização do acesso às melhores condutas ao pacientes e compartilhamento de conhecimento entre especialistas caminham lado a lado

 

“O atendimento oncológico pode e deve ser multidisciplinar, integral e simultâneo. O que praticamos durante o simpósio de forma explicativa é o que queremos praticar no nosso dia dia”, diz o oncologista Sergio Jobim Azevedo, coordenador científico do 8º Simpósio Internacional Oncoclínicas.

 

Para ele, esse processo de democratizar e universalizar o conhecimento médico é amplamente favorecido pelo formato digital, uma das heranças positivas da pandemia. “Toda a programação foi disponibilizada de forma gratuita para médicos, estudantes de medicina e outras profissionais de saúde. Uma pessoa que está no extremo norte ou sul do país pode compartilhar desse momento”, reforça.

 

O evento contou com treze salas temáticas, com transmissão simultânea e em tempo real, divididas por especialidade: mama, geniturinário, pele, ginecológico, sarcomas, neuroendócrino, cabeça & pescoço, hematológico, gastrointestinal, torácico, sistema nervoso central e onco hemato pediátrica (sala multidisciplinar).

 

“O valor da cooperação entre especialistas é uma das principais mensagens que trouxemos. Tivemos a oportunidade de reunir os maiores especialistas em oncologia clínica, cirurgia oncológica e análise genética do Brasil e exterior para debater o que há de mais avançado nestes segmentos e compartilhar este conhecimento com médicos de todo o país. Unir as equipes envolvidas na linha de cuidado com certeza agrega muito no resultado final para o paciente”, acrescenta Sergio Azevedo.

 

Ele ressalta que informações sobre os tratamentos, avanços, conquistas e desafios na luta contra o câncer precisam ser sempre compartilhados. Munidas dessas informações, as comunidades médica e científica conseguem evoluir e cobrar respostas por parte do poder público.

 

“Acredito piamente que a informação científica não deve ter barreiras. Só evoluiremos se caminharmos juntos. O câncer atinge toda a população, de classes altas e baixas e de todos os níveis de renda. Precisamos trabalhar na ampliação do entendimento sobre esses avanços tão significativos para que eles não fiquem restritos a um círculo fechado de especialistas e sejam disponibilizados rapidamente à população. É preciso garantir acesso ao melhor tipo de tratamento para todos”, finaliza.