Liberdade, igualdade, fraternidade. Só que não

*Por Flávio Jayme

Vou te propor um desafio: pare o que você está fazendo e imagine um médico. Um advogado. Um político. Um assaltante. Um cabeleireiro.

Agora responda: quem era branco? Quem era negro? Quem era gay?

Percebeu alguma coisa? Sim. O racismo e o preconceito estão intrínsecos em nós. Em todos nós. Mas o mundo não tolera mais este comportamento. Vivemos em tempos de liberdade de ser quem se é. Será mesmo?

Muito se fala sobre essa tal liberdade. Essa coisa de “hoje podermos ser quem somos”. Mas, como acontece muitas vezes, a teoria na prática é outra. Vemos políticos e celebridades negras sendo agredidos por conta de sua cor. Homem negro sendo espancado até a morte por brancos. Será que o contrário teria acontecido? O filho negro da empregada caiu do prédio porque a patroa branca deixou ele sair em um momento de negligência. A patroa responde em liberdade. Será que o contrário seria da mesma forma? Tente imaginar um cenário onde a empregada negra tivesse deixado o filho branco da patroa sair e ele tivesse caído do prédio. Acha que ela estaria sendo julgada da mesma forma?

Na internet, a mesma tal liberdade é distorcida. Liberdade de expressão é confundida com preconceito. “Ah, mas é só uma brincadeira, fulano não sabe brincar.” Tirar sarro do outro por conta da sua cor, tipo físico, orientação sexual não é expressar sua liberdade. Não é brincar. Não é fazer graça. https://www.instagram.com/p/CIMOBYzHBUU/

Uma pessoa negra, um gay, uma mulher, um gordo. Nenhum deles é menos capaz que um branco, heterossexual, homem, magro.

Se tornou tão comum exacerbar o preconceito na forma de “liberdade de expressão” que algumas pessoas chegam ao absurdo de dizer que não pode existir Papai Noel negro porque ele é branco. É? Onde? Fãs se revoltam na internet quando um super-herói é interpretado por um ator negro ou latino, gritando a plenos pulmões que “eles são brancos”. Veja bem: personagens fictícios. Papai Noel, James Bond ou Homem-Aranha. https://www.youtube.com/watch?v=SXH_aYoGlSk

O preconceito intrínseco está tão presente que em Hollywood foram necessárias regras para estabelecer que filmes só poderão concorrer ao cobiçado Oscar se, obrigatoriamente, envolverem diversidade. E teve gente que achou ruim o fato de filmes não poder mais serem feitos sobre, por e para homens brancos heterossexuais. Como assim existem outras pessoas no mundo?

A liberdade de ser quem se é vem com limites. Você pode ser, se vestir e agir da sua forma. Mas tem que estar preparado para as eventuais risadinhas e comentários. Ou ainda, evitar a violência em alguns casos. E, acima de tudo, entender que “ser quem você é” não significa desrespeitar quem o outro é.

A igualdade e a fraternidade da mesma forma são relativas. Parafraseando Humberto Gessinger, somos “todos iguais, mas uns mais iguais que os outros”. O “mas”, o “se” que por muitas vezes acompanham os argumentos disfarçados de respeito os derrubam imediatamente. “Seja negro, MAS pra que este cabelo?”, “Seja gay, MAS PRECISA ser afeminado?”. E pior, parece que estes poréns e estas justificativas tortas se tornaram lugar comum. Quantas vezes você mesmo já disse algo do tipo?

Pra ficar no pop brasileiro, o grupo Pato Fu tem uma música que diz que “com tudo a gente se acostuma”, é a tal da resiliência, tão em voga hoje em dia. Mas nem sempre tem que ser assim. Não podemos e não devemos nos acostumar com esta liberdade torta, cerceada, cheia de “mas” e “poréns”. Enfrentar padrões pré-estabelecidos, e muitas vezes burros, dói. Requer coragem. Mas não fosse a coragem de alguns no passado, hoje nem esta auto-proclamada liberdade teríamos.

O mundo gira em ciclos. A liberdade e a igualdade de hoje são consequência da repressão de algumas décadas atrás. Bem como a repressão que vem querendo aparecer é a consequência da liberdade que estamos ganhando. Tomara nunca cheguemos no mundo pintado por George Orwel em 1984 ou por Margaret Atwood em O Conto da Aia. Tomara que as asas da liberdade se abram o suficiente antes destas previsões se confirmarem. Mas tomara que seja rápido, porque parece que o ciclo já está mudando.

Liberdade, igualdade, fraternidade. Só que não

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