Mulheres e liderança: desafio cotidiano

Mulheres e liderança: desafio cotidiano

Claudia Saad*

Foi-se o tempo em que a figura de liderança e tomada de decisões dentro das organizações vestia apenas terno e gravata. O mundo está mudando e não há dúvida de que esse caminho vem sendo construído com muita luta, movimentos e debates. O processo de crescimento da gestão feminina nas empresas tem papel fundamental para inspirar e fortalecer a voz da mulher no mercado de trabalho e na sociedade. Apesar de caminharmos a passos lentos, é possível sentir as transformações geradas nesse cenário de liderança exercida por mulheres.

O contexto atual registra crescimento, mas infelizmente não é refletido no todo. Dados da pesquisa “Women in Business 2020”, realizada pelo instituto Grant Thornton International, apontam que homens ainda representam a enorme maioria nos cargos de liderança. Aliás, quanto mais alto o cargo, menor é a presença de mulheres. Se observarmos as funções de mais alto nível, apenas 15% das corporações possuem uma mulher no topo. De fato, ainda falta muito para que os papéis de liderança sejam equilibrados nas mãos de homens e mulheres.

Pluralidade e equidade são assuntos tão presentes nas pautas atuais. O barulho desses movimentos é considerável e cada vez mais forte. Ainda assim, sabemos que temos um longo caminho a percorrer. Se levarmos essas discussões para o campo da Educação, deparamo-nos com outras questões também muito desafiadoras, que merecem nossa atenção e reflexão. No aspecto pedagógico, a escola é hoje um espaço majoritariamente de gestão feminina, mas, infelizmente, ainda é um dos ambientes que conserva comportamentos contraditórios e de desequilíbrio entre homens e mulheres.

Precisamos pensar sobre o “currículo oculto” nas práticas e narrativas do dia a dia da escola, que podem reforçar essas diferenças de gênero. Não podemos generalizar, mas é comum vermos em algumas escolas meninas sendo incentivadas a serem quietas e reservadas, enquanto os meninos devem ter mais iniciativa. Nos momentos das trocas entre alunos e educadores sobre escolhas de profissões, pode ainda estar presente uma narrativa sobre quais ocupações são adequadas para mulheres, de acordo com os espaços culturalmente aceitos para elas. Enquanto meninas são estimuladas a desenvolver a afetividade, o cuidado e a sensibilidade, garotos desenvolvem habilidades de raciocínio lógico e precisão.

Essas diferenças se manifestam de forma velada, sobretudo nos comportamentos corriqueiros do dia a dia. Contudo, a escola deve ser um espaço de transformação. Se, historicamente, tem colaborado para que os comportamentos mencionados sobrevivam, ela também tem o poderoso potencial de desconstruir essa cultura. É terreno fértil para promoção da equidade.

Refletindo sobre esses comportamentos tão presentes no cotidiano, percebemos o quanto são banalizados e absorvidos pela tradição. São o resultado do que, ao longo da história, entendemos como permitido – e da naturalização daquilo que a sociedade construiu como correto. E esse é o ponto! Não podemos entender nem aceitar a tradição como justificativa para que a mulher não realize suas escolhas, tome suas decisões e alcance seus objetivos. A começar pela transformação desses pequenos hábitos, temos o poder de incentivar organizações a serem mais equilibradas e mulheres a exercerem todo o seu potencial.

 

*Claudia Saad é gerente pedagógica do Sistema Positivo de Ensino.

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