Caetano Brasil recria “Canção da odalisca”, romance oriental de Pixinguinha

A música “Canção da Odalisca” que Pixinguinha compôs há quase 100 anos foi recriada pelo clarinetista, saxofonista e compositor mineiro Caetano Brasil. A composição vai integrar “Pixinverso”, o novo álbum do artista com previsão de lançamento para março de 2022. Após ser indicado ao Grammy Latino, Caetano está pronto para a próxima fase da carreira com um ousado trabalho no qual busca estreitar os laços entre o choro, o jazz contemporâneo e a world music. E, depois de entregar o primeiro gostinho com “Carinhoso”, uma faixa intrínseca no DNA da música nacional, agora o músico revela a menos conhecida e igualmente grandiosa “Canção da Odalisca”

Chamando atenção de cara, o projeto gráfico segue a linha do primeiro single, também assinado pelo designer Renan Torres. A ilustração ajuda a contar outra parte da história, complementando a música. Artista inquieto que busca sempre ir além do óbvio, Caetano Brasil mergulhou em uma pesquisa sobre a figura da odalisca, a escrava do harém, como contam as Mil e Uma Noites. 

“Buscando um olhar contemporâneo e que encontra o meu espaço, decidi que o meu corpo LGBTQIA+ poderia vir como rótulo, numa lata de leite condensado, em que estamos tão acostumados a ver uma moça. Às vezes noto a música instrumental um tanto distante da realidade das pessoas. Parece que ela está num pedestal, divina e inacessível. E a mim interessa usar dela e de todos os espaços que ela me proporciona ocupar como instrumento para falar das minhas vivências, com suas dores e delícias. Penso que é assim que nos conectamos com quem nos ouve”, reflete Caetano.

De acordo com o próprio Pixinguinha, em seu manuscrito de arranjo para orquestra que data de 1932, esta composição é um romance oriental. Dialogando com culturas absorvidas em suas turnês internacionais, o renomado compositor e instrumentista trouxe para essa narrativa a sua própria brasilidade. O resultado é uma música cosmopolita e moderna para a época. Agora, Caetano Brasil oferece o seu próprio olhar contemporâneo para a criação de Pixiguinha.

“‘Canção da Odalisca’ é um dos tesouros escondidos em sua grande obra, tendo pouquíssimas gravações registradas. Para este arranjo, eu quis trazer elementos da minha pesquisa que deu origem ao repertório do meu álbum anterior, ‘Cartografias’ (2019). Assim, a partir da proposta de Pixinguinha, pude ir ainda mais fundo na conversa com a música do Leste Europeu, com a música judaica e a do Oriente Médio”, explica Caetano Brasil.

“Pensei logo de cara numa linha de baixo característica de um ritmo chamado çiftetelli (lê-se tiftetéli), tradicional em países como a Turquia, e em usá-lo como base para a construção do arranjo. No meio da peça resolvi incluir cadências, momentos em que o clarinete improvisa acapella, construindo paisagens, cenários que, todas as vezes que toco, apontam para lugares diferentes. Para mim, nestes trechos o clarinete incorpora a odalisca e toca como quem lamenta. Quando a banda retorna, o clima é de valsa-jazz e na gravação acabou rolando uma citação no início do meu solo de Jitterbug Waltz, uma composição do Fats Waller que eu amo tocar”, completa.

Não por acaso, o projeto “Pixinverso” começou a ser gestado durante a produção de “Cartografias”, segundo álbum do artista, quando ele chegou a gravar uma versão de “Um a Zero”. A música, lançada como single em dezembro de 2020, fez parte do repertório apresentado no Prêmio BDMG Instrumental e no Prêmio Nabor Pires Camargo, eventos nos quais Caetano foi eleito como Melhor Instrumentista e premiado em 1º lugar, respectivamente. Ver a sua versão única para algo tão clássico inspirou o músico a ir mais a fundo. 

O repertório do álbum  vai se dividir em músicas que fazem parte do cancioneiro popular e faixas mais desconhecidas do grande público – como a própria “Canção da Odalisca”. Produzido por Caetano Brasil, o single está disponível em todos os serviços de música.

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