Verdade e opinião

Por Wanda Camargo*

Uma definição saudável de opinião seria “maneira de pensar, de ver, de julgar”, sendo então a expressão da individualidade, da conclusão a que o indivíduo chega por seus próprios meios acerca de algo. Nesse contexto, liberdade de opinião é um valor indispensável à democracia e à boa sociedade.

No entanto, a ideia sofre a corrosão dos voluntarismos e opinião passa a ser, não o que a pessoa pensa que é verdade, mas o que gostaria que fosse verdade. Uma diferença sutil que traz o risco de manipulações várias a partir de crenças e desejos, e não de experiencias fundadas na realidade e no conhecimento. Os populismos alimentam-se dessa fragilidade cognitiva, com os líderes de massas fazendo promessas estapafúrdias e impossíveis, mas que acham eco no desejo coletivo de seus seguidores de ouvirem apenas o que lhes agrada e nunca a verdade; o que popularmente é definido por “me engana que eu gosto”.

Assim, afirmações como a de que a Covid-19 é apenas uma “gripezinha” que pode ser tratada por panaceias comprovadamente ineficazes veem ao encontro do que pessoas justificadamente apavoradas com a pandemia gostariam que fosse verdade.

Por isso, o terraplanismo se espalha pelas redes sociais, é a experiência sensível sobrepujando qualquer interpretação científica, mostrando que Michel Foucault estava correto ao afirmar que “cada sociedade tem seu regime de verdade, sua ‘política geral’ de verdade: isto é, os tipos de discurso que ela acolhe e faz funcionar como verdadeiros; os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados verdadeiros dos falsos, a maneira como se sanciona uns e outros; as técnicas e os procedimentos que são valorizados para a obtenção da verdade; o estatuto daqueles que têm o encargo de dizer o que funciona como verdadeiro”.

Atualmente vivenciamos um regime da verdade baseada no depoimento, nas opiniões, no achismo, no voluntarismo, e não em confiança nas instituições, no comprovado cientificamente.

A adesão às vacinas, por exemplo, depende bastante do recebido em nossos WhatsApp, pois ali estão amigos, parentes, colegas de trabalho, nos quais tendemos atualmente a depositar mais credibilidade do que em veículos consagrados de mídia que contratam jornalistas de grande seriedade, especializados em vários temas; preferimos blogs e influenciadores, muito deles adequados em suas áreas como moda, maquiagem, cozinha, doçaria, pães, mas que podem não ser exatamente experts em saúde ou política. Em alguns casos, tais blogueiros são apenas arrivistas que vendem a si mesmos e opinam sobre praticamente tudo, com pouco ou nenhum conhecimento sobre qualquer tópico abordado.

Isso nos impede de reconhecer a excelência de alguns especialistas nas respectivas áreas, pois na realidade queremos um guru, alguém que nos dite como agir e comportar em todas as situações da vida. Ter um mestre condutor nos evita reflexão, pensar no certo e errado, pesquisar, ouvir muitas pessoas na busca de verdade.

Educação é um processo árduo, requer disciplina e atenção, e contrariamente ao que se afirma não pode ser realizado de forma totalmente lúdica, a menos da voltada à primeira infância. Não significa que seja desagradável ou exageradamente cansativo, mas requer dos envolvidos a disposição de pensar, de enfrentar certezas cristalizadas, de ouvir.

Da mesma forma, o amadurecimento passa pelas mesmas etapas, não se amadurece num casulo de fantasias, pois é necessário o enfrentamento do mundo e da vida com seus desafios e dificuldades, algo que vale a pena por ser a única forma de viver plenamente.

Boas escolas, familiares amorosos, bons relacionamentos, auxiliam o crescimento individual e coletivo, separar o real do simples desejo e entendermos o amplo conceito de cidadania.

 

*Wanda Camargo – educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil – UniBrasil.

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