O homem vai, mas o legado fica

André Luiz Pinto (*)

O homem vai, mas o legado fica
André Luiz Pinto dos Santos, escreve sobre sua experiência acadêmica com o artista paranaense, Fernando Senna Calderari (à direita)
Arquivo pessoal

Na madrugada do dia 14 de dezembro de 2021, a arte paranaense ficou mais triste. Isso porque, morria o professor e pintor, Fernando Senna Calderari, ou apenas “Calderari” como ficou conhecido no meio artístico.

Calderari nasceu na cidade da Lapa-PR, no ano de 1939, e teve como mestres ícones da arte paranaense, como Erbo Stenzel (artista que esculpiu as estátuas do Homem e da Mulher nua na praça 19 de dezembro em Curitiba), Guido Viaro (responsável pelas escolinhas de arte no Estado do Paraná) e Theodoro de Bona (exímio pintor da paisagem de nosso Estado, e aluno de ninguém menos que Alfredo Andersen, considerado o pai da pintura no Paraná).

Por esta formação, já conseguimos ver que Calderari não era apenas um artista que vendia seus quadros, ele conhecia muito da arte, era um exímio gravador, desenhista e pintor.

Lembro-me que em certa ocasião, na Escola de Música e Belas Artes, os estudantes do curso de bacharelado em Escultura estavam sem professor de pintura, e Calderari se dispôs a ser o professor da turma sem ganhar nenhum centavo.

Foi nesta oportunidade onde pude ser seu aluno. Eu, que fazia o curso de Bacharelado em Pintura, lhe perguntei se podia fazer as aulas com o outro curso e ele deixou.

Certa vez, em uma das aulas, fazíamos de observação, o desenho de uma garrafa e de uma laranja. Quando, de repente, o professor Calderari mexe na composição. Havia tombado a garrafa e tirado as laranjas do lugar. Questionado pelos estudantes ele falou: “Ué! A garrafa e as laranjas não continuam sobre a mesa? É só desenhar.” Para quem desenha sabe, o quão difícil é quando o modelo sai do lugar. Necessita de uma capacidade de memorização e velocidade de representação absurda.

Em outra aula, ao ajudar um de seus estudantes, eu o vi segurar um copo plástico de café, uma paleta de madeira, e um cigarro em uma das mãos e na outra um pincel. Todavia, como o pincel estava muito esgarçado, devolveu o pincel e disse que iria acertar a tonalidade e a forma da laranja com o dedo. E assim o fez. Em duas ou três “dedadas”, Calderari fez a laranja pular do quadro.

Era assim, exigindo muito de seus estudantes, mas ao mesmo tempo, de forma divertida e acolhedora de ensinar que Fernando Calderari deixou seu legado.

Hoje, sou um dos professores do curso de bacharelado e licenciatura em Artes Visuais do Centro Universitário Internacional Uninter, e tenho o prazer de levar aos meus mais de dois mil estudantes, o conhecimento que obtive das aulas do Professor Calderari. Espero um dia, ter sido tão importante para a formação acadêmica de meus estudantes, como o professor Fernando Senna Calderari foi para a minha.

Quando eu olhar o noturno do céu, tema tão explorado em suas marinhas, agradecerei com orgulho: “Obrigado, Calderari”.

 

*André Luiz Pinto dos Santos é mestre em educação e novas tecnologias e professor da área de Linguagens Cultural e Corporal nos cursos de Licenciatura e Bacharelado em Artes Visuais do Centro Universitário Internacional Uninter.

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