Medicamentos para diabetes estão sendo usados de forma incorreta para o emagrecimento

Patrícia Rondon Gallina (*)

O número de pessoas com obesidade está prestes a dobrar em todo o mundo. Esse é o alerta que a Word Obesity Federation (Federação Mundial de Obesidade) trás no atlas sobre obesidade publicado este ano. No Brasil, a estimativa é que 30% da população adulta brasileira apresente algum nível de obesidade até 2030, já para as crianças, a previsão é que 22,7% dos pequenos, de 5 a 9 anos, convivam com a doença.

 

A obesidade é uma doença crônica multifatorial, o que significa que diversos fatores podem contribuir para o seu desenvolvimento, como genéticos, metabólicos, psicológicos, sociais e ambientais. Ela é caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura corporal que pode desencadear diversos problemas de saúde.

 

O Brasil é um dos países com maiores níveis de obesidade no mundo. Para se ter ideia do que isso significa na prática, podemos fazer um cálculo simples: a cada cinco mulheres, uma apresenta obesidade, e a cada sete homens, um também é obeso. Esse é o motivo pelo qual, cada vez mais, é possível encontrar pessoas que busquem alternativas para o emagrecimento. Sabemos que esse processo não é fácil, exige dedicação e disciplina, além de apresentar resultados em longo prazo. É dentro deste cenário que alternativas para o emagrecimento de forma rápida acabam surgindo como uma fórmula milagrosa e alguns medicamentos para o controle de diabetes vêm chamando atenção nos últimos anos devido ao seu potencial para a perda de peso.

 

A liraglutida e a semaglutida são fármacos que inicialmente foram desenvolvidos para o tratamento de diabetes, elas pertencem à classe dos agonistas de GLP-1, e quando administradas reduzem o movimento peristáltico do intestino delgado, o que gera a sensação de saciedade, diminuindo a fome e fazendo com que os pacientes comam menos, pois se sentem satisfeitos de forma mais rápida. Estudos publicados pelo The New England Jornaul of Medicine, em 2021, mostraram que a semaglutida também apresenta efeitos positivos no tratamento da obesidade, podendo levar a redução de até 15% do peso corporal quando administrada uma vez por semana por um período de 15 meses. Mas esses pacientes também precisavam praticar exercícios físicos com frequência, além de manter uma dieta balanceada.

 

A publicação de novos estudos, associada com a aprovação da FDA — órgão regulamentador dos Estados Unidos para a utilização do medicamento no tratamento da obesidade — e a chegada recente no mercado farmacêutico da semaglutida na forma de comprimido (o que reduz o incômodo das aplicações injetáveis), vem gerando uma grande procura dos medicamentos antidiabéticos com o objetivo de emagrecimento. Como a compra desses medicamentos não exige a retenção de receituário médico, as vendas dispararam, sendo, muitas vezes, consumidos por pessoas que não possuem indicação de uso. A semaglutida está entre os dez medicamentos mais vendidos em 2021.

 

Isso gera um alerta sobre a forma com que as pessoas vêm lidando com o ganho de peso e o emagrecimento. No Brasil, os medicamentos citados acima não são aprovados pela Anvisa para o tratamento de redução de peso, e a sua administração por conta própria pode ser extremamente perigosa devido ao seu número considerável de efeitos colaterais, como gastroenterite, refluxo gastroesofágico, dor de cabeça, dor abdominal, hipoglicemia, tontura, distensão abdominal e vômitos. Além dos sintomas que podem se apresentar de forma intensa, os medicamentos possuem restrições a diversos grupos de pacientes, como as gestantes e lactantes e pacientes com histórico de doenças associadas a tireoide, pâncreas e fígado.

 

Vale lembrar que o excesso de peso não é um problema estético, mas, quando diagnosticado como obesidade, pode ser o gatilho para diversas complicações de saúde, como infarto, AVC, diabetes, hipertensão, problemas articulares, entre outros. Ressaltamos a importância de um acompanhamento multidisciplinar em saúde que será capaz de traçar estratégias saudáveis para o emagrecimento, que não coloquem em risco a saúde do usuário. Então, não busque sozinho por resultados milagrosos que podem gerar danos ainda maiores à sua qualidade de vida.

 

*Patrícia Rondon Gallina é farmacêutica, mestranda em Ciências Farmacêuticas e professora do Centro Universitário Internacional Uninter.

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