ARTIGO / Gramado ruim é pior que grama sintética / Por Lúcio Ernlund*

Praticado por milhões de pessoas de diversas idades, o futebol é um dos esportes mais populares do mundo. E a questão do momento é: qual é o melhor, gramado natural ou sintético? A polêmica veio à tona com a implantação do solo artificial na Arena da Baixada, em Curitiba.

Na verdade, o que deveria estar em debate é a qualidade do gramado e não a sua composição. Alguns pontos devem ser analisados para chegarmos a uma conclusão. Um deles é que os estádios estão ficando mais modernos e, em pouco tempo, a maioria deles será coberta. Mesmo se a cobertura for retrátil, a incidência de sol, indispensável ao gramado natural, será menor. Outro aspecto a ser analisado é a superfície irregular dos gramados, que é comum nos campos brasileiros.

No que se refere a lesões, não há diferença, já que o risco é o mesmo. Isso se compararmos a grama natural perfeita e a artificial de terceira geração – produzida a partir do ano 2000, que possui recheio de areia e borracha, responsável por amortecer as quedas e evitar a derrapagem. Ou seja, gramado natural de má qualidade, irregular e com buracos é muito mais perigoso para o atleta (seja ele profissional ou de fim de semana) que o gramado artificial.

Jan Ekstrand, médico e pesquisador sueco e chefe do comitê médico da Uefa, tem os trabalhos científicos mais atuais que embasam a chancela da Fifa para a grama artificial de terceira geração. Todos os estudos de curto prazo (não há estudos de longo prazo, de 20 a 30 anos, já que o material não existia) mostram não haver nenhuma diferença. Por isso e pela facilidade de manutenção, a grama sintética de terceira geração e suas evoluções a partir daqui devem ser uma tendência mundial.

Por ser tratar de uma atividade com contato físico, movimentos curtos, rápidos e não contínuos, como aceleração, desaceleração, mudanças de direção constantes e saltos, o futebol é responsável pelo aumento no número de casos de lesões traumato-ortopédicas. Essas contusões acontecem devido a métodos inadequados de treinamento, falta de condição física, alterações estruturais que sobrecarregam mais determinadas partes do corpo que outras e pela fraqueza muscular, tendinosa e ligamentar, causando, além da dor, desconforto e, em alguns casos, incapacidade articular de movimentos.

No caso dos atletas profissionais, as razões podem ser outras, como sobrecarga de exercícios, tanto nos treinos quanto pela quantidade de jogos, e devido ao maior impacto e velocidade durante a prática. A ocorrência de lesões em jogadores é maior nos membros inferiores, sendo as mais comuns no futebol a entorse de joelho e tornozelo, distensões da coxa, da virilha e da região lombar, fraturas e luxações. E isso vai continuar ocorrendo – entre amadores e profissionais, na grama natural ou sintética. Afinal, futebol é, e sempre vai ser, um esporte de contato. Porém, a implantação da grama sintética poderá contribuir para a diminuição desse quadro.

Lúcio Ernlund, ex-diretor médico do Coritiba, é diretor médico do Instituto de Joelho e Ombro (IJO) e presidente da Sociedade Brasileira de Artroscopia e Traumatologia do Esporte (Sbrate).

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Dr. Lúcio Ernlund (Crédito: Bruna Zembuski)

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