Inexperiência e despreparo / Por Wanda Camargo*

Evidentemente tudo ficou um pouco mais complexo com a pandemia, que trouxe dificuldades ao cidadão, principalmente aquele com menos acesso ao processo educativo formal que tem mais dificuldade em obter e manter um emprego razoável para sustento próprio e de familiares, e também para empresas de todos os segmentos, que viram reduzidos seus ganhos.

Mas já anteriormente a este problema, organizações vinham tentando reduzir seus custos por meio de contratação de pessoas inexperientes e/ou menos qualificadas; isso é particularmente notável naquelas estrangeiras, que aproveitam os incentivos fiscais e a mão-de-obra bem mais barata que as de seus países de origem. Estes são os estímulos principais para que abram “filiais” em países de terceiro mundo, onde trabalhadores são menos exigentes com seus direitos trabalhistas, muito em função da ausência de qualificação, que os faz suportar jornadas maiores e mais exaustivas com menor remuneração.

Quando acontece uma tragédia como o assassinato deste homem negro num supermercado, há quase sempre um protocolo para as ações da empresa envolvida: lamentar o ocorrido (todos nós lamentamos também); declarar que está prestando toda a assistência aos familiares (há controvérsias); o setor de marketing produz frases e cartazes coloridos expressando intenções maravilhosas e inócuas que pretendem ser uma declaração dos princípios que serão seguidos (quase nunca são); e, a cereja deste bolo de iniquidades, dizer que está “colaborando com as investigações” (isso não é opção, é obrigação do investigado, ou em outros países é diferente?).

Falta nisso tudo uma afirmação: “não devia ter acontecido”. Aconteceu, não por determinação direta da direção da empresa, supostamente composta por pessoas civilizadas que não desejariam o evento mas, e é tão ruim quanto, por sua indiferença. Há todo um histórico de barbaridades cometidas por seguranças, deste e de outros supermercados, contra pessoas e até animais, e não há nada que tenha sido feito em nível institucional para combater isso.

Dentro do vício de culpar a vítima, há uma narrativa segundo a qual o assassinado seria agressivo e inconveniente e já teria precedentes de má conduta naquela mesma loja. Na hipótese disso ser verdade, caberia aos vigilantes retirá-lo do ambiente, proibir sua entrada e, no limite, imobilizá-lo sem ferimentos e chamar a polícia. É importante que a polícia é que fosse chamada, e não traficantes ou milicianos como consta que já ocorreu em outras situações.

Pobres, principalmente negros pobres, não são normalmente clientes preferenciais do comércio, por alguma razão estranha gastam pouco, e ainda demoram a escolher produtos e reclamam do atendimento. Os seguranças de supermercado, geralmente despreparados, tendem a odiá-los, ou por ver neles o reflexo de suas próprias origens ou por acreditar que “dão trabalho”; é interessante notar que a mesma pequena “infração” punida no mínimo com uma fala ríspida quando o infrator é menos privilegiado é relevada completamente para a classe média.

Empresas têm, ou deveriam ter, cadeias de comando bem definidas, a alta direção não pode evidentemente saber ou ter controle sobre tudo que ocorre nos demais níveis, mas pode e deve determinar a cultura empresarial e exigir seu cumprimento. Se o foco for apenas o lucro, e ações voltadas a isso forem sobrevalorizadas em detrimento de todas as demais, os diversos segmentos executivos, produtivos, e até de segurança patrimonial, terminarão contaminados, esquecendo todos os demais fatores, incluindo o respeito à vida humana. É inegável que todo empreendimento público ou privado de qualquer porte tem compromisso com a própria sobrevivência e sucesso, e empresas existem também para proporcionar lucro, mas não apenas para isso.

Além das “missões” gravadas em bronze nos saguões das diretorias há uma dimensão moral que se sobrepõe às demais, talvez apenas o cumprimento das promessas contidas naqueles textos, que geralmente versam sobre o bem público, a solidariedade humana, a ética empresarial, o respeito à lei e aos “atores” sociais, e que terminam se tornando ridículas platitudes no confronto direto com a ganância, a insensibilidade e a total falta de empatia.

Uma grande corporação colocar a segurança de suas lojas, seus funcionários e seus clientes em mãos de pessoas não qualificadas para isso, exaustas por terem dois ou três empregos, mal pagas e ressentidas, é caminho inevitável para a sucessão de crimes que já ocorreu culminando com a atrocidade atual, que demonstra claramente o valor de um bom processo educacional, orientações firmes e uma compreensão da cidadania.

 

Wanda Camargo – educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil – UniBrasil.