TDAH: a “epidemia” da desinformação nas redes sociais

No último ano, a busca pelo termo “TDAH” dobrou no Brasil, segundo a empresa Google. Já estudo canadense aponta que nas redes sociais, mais de 50% do conteúdo sobre o Transtorno de Déficit de Atenção contém informações falsas ou distorcidas

TDAH: a "epidemia" da desinformação nas redes sociais
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O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é uma doença que afeta mais de dois milhões de brasileiros e que, segundo dados da Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA), tem apenas 20% dos casos devidamente tratados no país. Com uma forte carga genética, estima-se que 30% das crianças diagnosticadas têm um dos pais, quando não os dois, diagnosticados com o transtorno. Um dos assuntos mais populares na internet nos últimos tempos, o tema tem despertado interesse na população e certa preocupação na comunidade médica e científica.

De acordo com levantamento do Google, as pesquisas pelo termo TDAH tiveram altas superiores a 100% ao ano, nos últimos anos, no Brasil. Enquanto a média mundial ficou na casa dos 60%. Em outra pesquisa, essa realizada pelo The Canadian Journal of Psychiatrydescobriu-se que, nos 100 vídeos mais vistos no mundo sobre TDAH no Tik Tok, pelo menos 50% deles continham informações falsas ou enganosas. Apenas 21% dos conteúdos analisados apresentavam informações cientificamente comprovadas.

Para a médica neurologista do Pilar Hospital, Ana Carolina Dalmônico, a ampla discussão sobre o TDAH é benéfica, desde que feita da forma correta. “Hoje, pela divulgação adequada sobre o tema, o tratamento tem se mostrado muito efetivo e realmente impactado no desempenho de crianças na escola e até mesmo adultos em seu trabalho. No entanto, cabe lembrar que o diagnóstico é baseado em critérios bem definidos e que devem ser respeitados para início de tratamento”, explicou a neurologista.

Super poder?

A popularização do tema levou milhares de pessoas a compartilhar suas experiências com os sintomas do TDAH. Entre elas, influenciadores digitais, artistas, músicos, empresários entre outas personalidades da sociedade. Antes estigmatizado, o TDAH ganhou nuances de “super poder”. A discussão ajudou a desmistificar a patologia, que segundo a médica Ana Carolina, durante muito tempo foi pouco divulgada e era confundida com transtornos de personalidade e humor, mantendo uma série de rótulos depreciativos. “A verdade é que o TDAH impacta de maneira acentuada no funcionamento geral do indivíduo. Tanto em adultos quanto em crianças. impacta em vários aspectos da vida como os estudos, trabalho, vida social e familiar. Os pacientes apresentam grande dificuldade de atenção e de organização de suas atividades. Apresentam ainda dificuldade de seguir instruções e acabam por iniciar várias tarefas sem concluir nenhuma (nunca terminam aquilo que começam). Esses indivíduos acabam demorando para iniciar as suas tarefas e cometem erros por distração ocasionado prejuízo escolar e profissional”, explicou a médica.

Nos adultos, o transtorno pode incorrer ainda em prejuízos na vida profissional e financeira em razão da impulsividade e da procrastinação acentuada. Muitos pacientes adultos relatam que sentem como se tivessem um freio que os impede de seguir com suas tarefas. Relatos muito comuns são: “não consigo me concentrar em uma tarefa por mais de 30 min, não consigo me organizar em nada”, detalhou a neurologista.

Diagnostico

Em meio ao frenesi do tema – só no Instagram são mais de 1,4 milhões de publicações com a hashtag #TDAH – a oferta de testes online, autoavaliações, além de “dicas para diagnosticar” o TDAH, tornou-se grande. Porém, a neurologista do Pilar Hospital explica que a única forma de diagnosticar o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade é com a medicina. “Para um diagnostico adequado faz-se necessária avaliação com médico neurologista ou psiquiatra.  A depender do caso, são solicitados exames complementares laboratoriais ou de imagem, embora não sejam obrigatórios para o diagnóstico desta condição. Vale ressaltar que os sinais e sintomas de TDAH devem estar presentes desde a infância – algo muito importante a ser questionado para os adultos em consultório”, concluiu a neurologista.