Em recente artigo, o Ministro Luiz Roberto Barroso lembra que auxiliar verdadeiramente um prรญncipe รฉ colocar ao seu lado alguรฉm que lhe possa dizer a verdade; porรฉm um grave problema enfrentado hoje nas organizaรงรตes das mais variadas รกreas, รฉ a dificuldade de estabelecer limites de competรชncias e autonomias. Isso, claro, รฉ mais sensรญvel em algumas delas, nas quais a questรฃo da criatividade, inovaรงรฃo e eficiรชncias especรญficas sejam mandatรณrias ao exercรญcio profissional, como รฉ o caso, por exemplo, das escolares.
Dirigentes podem โ e devem, dentro de certos limites โ mandar, se fazer obedecer, mas o velho adรกgio popular โvรกrias cabeรงas pensam melhor que apenas umaโ รฉ com certeza correto; o excesso de centralizaรงรฃo do poder decisรณrio nรฃo tem produzido bons resultados no paรญs da โordem e progressoโ positivista, jรก em si revelador de grande dicotomia entre regulaรงรฃo e emancipaรงรฃo, tal como expresso por Boaventura de Souza Santos, que tambรฉm declarava que โo Estado moderno, nรฃo obstante apresentar-se como um Estado minimalista, รฉ potencialmente um Estado maximalistaโ, ao analisar a sรฉrie de normas, condicionantes e legislaรงรตes a que somos submetidos.
Centralizaรงรฃo versus descentralizaรงรฃo continua sendo um dos terrenos minados de nossos processos de gestรฃo; ambos envolvem questรตes educacionais e libertรกrias, um embate entre ditadura ou democracia, e a rigor nenhuma delas รฉ um valor absoluto, sรฃo modos abstratos de se lidar com a realidade, hรก vantagens e desvantagens em ambos os casos, e consequรชncias profundas na realidade.
Atualmente, e atรฉ pelas dificuldades enfrentadas no plano polรญtico global, que provocam o receio de prejuรญzos e um maior risco de investimentos num mercado instรกvel, parece prevalecer a centralizaรงรฃo, na qual a aparente vantagem do gestor que tem seus desejos acatados, e nem todos sรฃo ruins, representa um obstรกculo ao desenvolvimento educativo e um imenso prejuรญzo social, jรก que esta atende a interesses e necessidades de grupos muito restritos, em detrimento dos mais gerais, numa sociedade civil ainda presa pelo analfabetismo, do ensino de mรก qualidade, da ausรชncia de autonomia indispensรกvel para a cidadania.
ร perfeitamente compreensรญvel quando desejamos ser simplesmente obedecidos, porรฉm sรณ podemos implantar algo novo se este estiver imbuรญdo de elementos jรก relacionado ao aceito pela comunidade, com simbolismos e valores introjetados, ou seja, prรกticas que validem a mudanรงa na tradiรงรฃo. Fora deste cenรกrio, as pessoas participantes, as tarefas, assim como a mudanรงa organizacional e sensibilidade ร comunidade externa, bem como os modelos das estratรฉgias, prรกticas e o exercรญcio de papรฉis inovadores nรฃo podem ser implementados, provocando um abismo entre aquilo que ensinamos em sala de aula e aquilo que efetivamente vivenciamos.
Cercar-se daqueles que apenas dizem โsim senhorโ dificilmente criarรก ambiente favorรกvel ao aperfeiรงoamento de processos e indivรญduos, permitindo mais facilmente os desvios รฉticos que assistimos diariamente em todas as esferas organizacionais e polรญticas no paรญs.
Brasileiros, somos um barco ร deriva, e todos os absurdos que contrariam o bom proceder, o decoro, a sustentabilidade, que prejudicam a articulaรงรฃo das funรงรตes, o alinhamento de comportamentos e aspectos relacionais mรบltiplos, ou o inter-relacionamento entre processos estรฃo se tornando nossa โtradiรงรฃo inventadaโ.
Quando dirigentes polรญticos agem como imperadores, desprezando a opiniรฃo pรบblica, mas prezando muito suas vantagens pessoais, levam o paรญs ร ruรญna e todas as suas organizaรงรตes โ empresariais, educativas, comerciais – ao desespero, tomando decisรตes desastrosas num clima geral de salve-se quem puder, e a verdade que deveria ser dita ao prรญncipe รฉ a primeira a desaparecer.
Wanda Camargo โ educadora e assessora da presidรชncia do Complexo de Ensino Superior do Brasil โ UniBrasil.