Incidência de Burnout pode crescer no pós-pandemia

Incidência de Burnout pode crescer no pós-pandemia

ILUSTRAÇÃO: Por Yuri Busin, Psicólogo em SP, Mestre e Doutor em Neurociência Cognitiva – Leo Vieira, ilustrador – https://yuribusin.com.br.

 

A rotina de trabalho de boa parte da população exige a habilidade de se dividir para dar conta de muitas coisas ao mesmo tempo: reuniões, prazos curtos, pressão para cumprir metas e sobrecarga de atividades. E embora algumas pessoas sejam mais resistentes ao estresse, não há resiliência que aguente uma rotina assim por muito tempo. O resultado é que um dia, sem aviso, a mente entra em pane e a saúde cobra a sua conta. Esse fenômeno de exaustão relacionada ao trabalho tem nome: Síndrome de Burnout ou Síndrome do Esgotamento Profissional – e já está mais presente do que imaginamos.

De acordo com pesquisa realizada pela International Stress Management Association (ISMA), pelo menos 32% dos brasileiros sofrem de Burnout, o que corresponde a 33 milhões de pessoas. Quando comparado a outros países onde esse tipo de exaustão é mais incidente, o Brasil só fica atrás do Japão, cujo índice é de 70% da população. “Embora a síndrome tenha começado a ganhar mais destaque recentemente, não é um problema novo. Como seus sintomas são parecidos com os de outras desordens mentais, muitas vezes acaba não sendo diagnosticada”, aponta o endocrinologista Guilherme Renke, consultor da Via Farma.

E os sinais de que as pessoas estão descansando cada vez menos não param por aí. Seja resultante do trabalho ou de outras atividades diárias, a fadiga prevalece entre a maioria da população. Uma pesquisa feita em 2013 pelo Ibope revelou que 98% dos brasileiros se sentem cansados e 61% deles estão exaustos. “Rotinas intensas, que não respeitam as horas de descanso, podem desregular o ciclo circadiano, prejudicando a saúde física e mental”, aponta Renke. O médico ainda destaca que um sinal de alerta para a procura de um especialista é quando o cansaço persiste mesmo após noites bem dormidas e momentos de lazer. “Esse pode ser um indicativo de fadiga crônica, Burnout ou outras desordens que precisam de investigação médica”, completa.

Cérebro em combustão

O termo “Burnout” foi criado pelo psicanalista alemão Herbert Freudenberger em 1974 e significa “queima completa”. E é exatamente o que acontece: sobrecarregado, o cérebro entra em colapso e a sensação é de que sobraram apenas cinzas – é o esgotamento completo. “Entre os sintomas mais frequentes da síndrome estão os lapsos de memória, dificuldade de concentração, ansiedade, depressão, faltas ao trabalho, agressividade, irritabilidade, falta de produtividade e pessimismo em relação às próprias perspectivas”, elenca Renke.

Além dos sinais cognitivos e comportamentais, o corpo também começa a dar sinais físicos de que algo não vai bem: dores de cabeça, crises de enxaqueca, insônia, distúrbios gastrintestinais, dores musculares, sudorese, palpitação, pressão alta e crises de asma podem se tornar frequentes. “Devido à elevação crônica dos níveis de cortisol, o hormônio do estresse, também é comum que o paciente tenha a imunidade suprimida, apresentando quadros recorrentes de doenças infecciosas, como gripes e resfriados”, explica o médico.

Home office e “fadiga digital”

Com a adoção do distanciamento social como forma de frear o avanço da pandemia,  boa parte das empresas implantou o trabalho remoto. À primeira vista, o home office pode parecer simples e até mais fácil, mas não é: trabalhar de casa pode ser uma armadilha para a saúde mental de quem não tem um bom planejamento. “Os limites entre o expediente e o horário de descanso podem se misturar e muitas pessoas acabam trabalhando mais do que no escritório. Também é comum que a auto cobrança por produtividade e a carga de estresse aumentem, até porque, nesse momento, muitos estão dividindo atenção entre trabalho, educação dos filhos e tarefas domésticas”, diz o médico.

“Quem já convive com o Burnout ou tem tendência a desenvolver a síndrome pode sofrer pioras nesse período. Por isso, é importante contar com a telemedicina para não abandonar o acompanhamento do psicólogo e do psiquiatra nessa fase”, destaca. A falta de contato humano também pode pesar com o home office e já estão surgindo novas formas de fadiga relacionada ao trabalho. Batizado de “zoom fatigue”, em referência a uma plataforma de vídeo conferência, esse tipo de cansaço mental se tornou comum na quarentena. “Para compensar a distância, as reuniões online podem se tornar excessivas, se estendendo por mais tempo do que o normal. Esse tipo de interação é mais cansativo para o cérebro e pode aumentar os níveis de estresse”, afirma.

Cansaço que contamina os hábitos

Outro ponto de atenção para quem luta contra o Burnout são as mudanças negativas que a desordem pode trazer para o estilo de vida. “É comum que o estresse crônico leve ao consumo excessivo de álcool e ao uso de cigarro e outras drogas, como forma de promover relaxamento”, alerta Claudia Luz, nutricionista do Departamento de Inovação da Via Farma. “Mas esses hábitos trazem um falso bem-estar, que é momentâneo e altamente prejudicial para a saúde, piorando o quadro já existente”, completa.

Tomar café em excesso e recorrer aos doces como forma de aumentar os níveis de energia também não é a solução. “A alimentação saudável é essencial para potencializar os resultados das abordagens terapêuticas adotadas para reverter o quadro. Recomenda-se optar por alimentos orgânicos, fontes de gorduras boas, proteínas de qualidade, alimentos ricos em antioxidantes, vitamina C e do complexo B, além de zinco e magnésio”, indica Claudia.

Para potencializar a recuperação, também é possível contar com a prescrição de alguns fitoterápicos. “Podem ser indicados ativos como Ashwagandha, Rhodiola rosea e Panax ginseng, por exemploUma opção mais recente é o extrato de carvalho francês, conhecido como Robuvit, que age mais especificamente no alívio dos sintomas do Burnout e também da Síndrome da Fadiga Crônica, reduzindo a fadiga e aumentando os níveis de energia por meio da regeneração das mitocôndrias e do aumento do número de ribossomos” explica a especialista.

Diagnóstico e tratamento

Apesar do crescimento rápido da Síndrome de Burnout, os números ainda não são fiéis à realidade, devido à dificuldade de diagnosticar a desordem. “Diante desse momento que vivemos, é esperado que haja um boom de transtornos mentais, inclusive de Burnout e Síndrome da Fadiga Crônica. Nesse cenário, os médicos que estão na linha de frente na luta contra o Covid-19 podem ser os mais afetados”, pontua Renke. De acordo com o médico, é preciso um olhar atento do profissional de saúde, principalmente em relação à rotina de trabalho do paciente, já que os sintomas são facilmente confundidos com outros transtornos, como depressão e Síndrome do Pânico.

Feito o diagnóstico, pode ser recomendado o tratamento com antidepressivos em associação com psicoterapia, para potencializar a recuperação. Além disso,  é indicada a avaliação da troca de trabalho, com a adoção de um estilo de vida mais regrado e livre de estresse excessivo. “Também é importante destacar que nem sempre será necessário um tratamento farmacológico. Muitos pacientes se saem muito bem com a suplementação fitoterápica, como no caso do extrato de carvalho francês, que reduz significativamente a fadiga física e mental”, afirma o endocrinologista. “O que as pessoas precisam saber é que existe qualidade de vida após o Burnout ou qualquer outro distúrbio mental. Só é preciso que elas deem o primeiro passo, se livrem de preconceitos e busquem a ajuda de um especialista”, finaliza.

Ilustração: https://yuribusin.com.br

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