A geopolítica da vacina e o impacto no Brasil / Por Rogério do Nascimento Carvalho

O maior desafio imposto aos Estados-nação no ano de 2020 se configura na  descoberta eficaz para combater os efeitos da Covid-19 que crescem em progressão geométrica no mundo. As autoridades constituídas encontram-se encurraladas, cujo efeito tem sido a negação científica e o ressurgimento do fascismo, que deixam feridas junto à população civil.

Países como Rússia, EUA, China e Reino Unido se destacam em produzir pesquisas que podem levar à produção de vacinas a combater à covid19 e proporcionar o controle da pandemia. Reconhecer o caráter essencial e estratégico à área da saúde aguça as nações a investirem em constituir conhecimento e, assim, administrar os rumos na seara global. Portanto, tornam-se presentes elementos geopolíticos na corrida para as nações solucionarem a presente questão. Somente os países dotados de estratégia devem ter meios de exercer o poder e aos demais cabe esperar por eventual transferência de tecnologia ou desembolsar quantias elevadas para ter acesso à vacina. Este é o preço pago pelo Brasil ao promover o desinvestimento paulatino em apoiar à ciência, bem como aliar-se ao negacionismo da pandemia.
A responsabilidade em proteger a população terá custo alto, pois estamos diante da disputa de interesses de potências globais de difícil conciliação em curto prazo, ou seja, cada um busca obter a vacina e, assim, obter prestígio na seara internacional e, consequentemente, poder. O recrudescimento na corrida científica tem recado claro: dominar o conhecimento e multiplicar área de influência.
Se houvesse convergência e compartilhamento de informações, beneficiaria a comunidade global. Entretanto, desconfianças mútuas e replicação de conflitos de nações estrangeiras em território nacional, colocam governantes como defensores de interesses que não lhes pertencem. Talvez o exemplo mais evidente esteja em dois experimentos em marcha no Brasil, o primeiro liderado pelo Reino Unido em parceria com o governo federal e, o segundo, por laboratório chinês em afinidade com o Estado de São Paulo.
Todavia, há utilização política nestes convênios, uma vez que o presidente Bolsonaro critica abertamente a iniciativa bandeirante, aumentando a repulsa em relação à China, ao questionar a eficácia do experimento que se desenvolve com o Instituto Butantan, de reconhecida capacidade internacional.
O Brasil possui competência para liderar pesquisas e não se manter em papéis marginais, dado a diversidade ímpar do país. Falta manejo administrativo e senso de respeito ao patrimônio natural, dada a incompetência e o desserviço de cidadãos mal preparados no exercício do poder. Desta maneira o país poderá se tornar anômalo na seara científicainternacional, bem como dependente da produção alheia.
À medida que as semanas transcorrem e o número de infectados e mortos aumenta, a geopolítica da vacina implica em engajar atores diante da disputa global, que permanecerá em outros campos, como refugiados, tecnologia 5G, espionagem, cyber tecnologia, dentre outros.

A articulação, portanto, depende de como as nações vão obter conhecimento técnico-científico suficiente e ofertar aos países menos favorecidos. Os desafios e oportunidades estão postos à mesa, bem como o que se mostra no tabuleiro geopolítico mundial diz respeito à continuidade do multilateralismo, tendo em vista a crise que envolve a solidariedade global.

A solução da crise passa pelo acesso irrestrito ao conhecimento. Tornar este direito universal deve superar as quimeras de países que estão em conflito aparente, bem como o obscurantismo de líderes que não atendem a demanda popular desfigurando a democracia e ao trabalho da informação fidedigna e as instituições legais.
*Rogério do Nascimento Carvalho – advogado, pesquisador de conflitos armados, doutorando no Programa de Integração da América Latina da Universidade de São Paulo (USP).

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