Não fique vermelho, fique rico / Por Wanda Camargo*

Hoje parece não estar mais na moda ter valores, dignidade, honestidade. Está na moda ser rico, de preferência muito rico.

Estudar está caindo rápido da preferência popular, substituído pela esperteza: nada de muito aprofundamento, nada de especialidade, apenas lábia e incapacidade de sentir-se mal por fazer com que outros percam ou sejam prejudicados; importante é sair-se bem, ter muitos seguidores, fazer sucesso nas redes sociais, lacrar com suas opiniões, por mais disparatadas que sejam, e lucrar despudoradamente. Tráfico de armas, de drogas, de pessoas, roubos de merendas de crianças desassistidas, desvios de verba da saúde, e muito discurso contra a corrupção.

Ter um bom – caro, caríssimo – advogado ajuda muito, principalmente se este for parente ou muito amigo de alguém que tenha escritório que atenda as mais altas cortes, locais onde o compadrio possa ser extremamente lucrativo além de promover visibilidade e, portanto, vantagens posteriores.

A sensação generalizada de que o cidadão comum não pode mais contar com a justiça, pois esta necessita de defensores extremamente dispendiosos e fora de seu alcance, que parecem na grande maioria dos casos atender preferencialmente aos criminosos de alto coturno, cobrando honorários proporcionais aos malfeitos de seus clientes. Rumores de vendas de sentenças, celerados sendo liberados dos cumprimentos de suas penas, declarações estapafúrdias de inocência mesmo com plateia para o dinheiro nas peças intimas, bocas na botija filmadas e fotografadas.

Não interessa o fato, apenas a versão.

Não fique vermelho se cargos estratégicos para o desenvolvimento do país e melhoria de vida de sua população são preenchidos por amizade e obediência à linha política de identidade com uma oposição cultural, sem que o indicado tenha a menor qualificação técnica, evidência clara de menosprezo pela ciência ou a mera adesão a teorias negacionistas; sem preocupação maior que o resultado da próxima eleição. Mesmo quando militares de carreira são escolhidos para todos os tipos de funções, como se o preparo para suas atividades originárias,  que existe e é bom para o que se destina, fosse também suficiente para desempenho de qualquer área profissional, por mais distante de sua formação o sejam, não se envergonhem de seus país. Acatamento da hierarquia, sujeição a qualquer norma exarada pelo superior, por estapafúrdia que seja – a banalidade do mal – habilita qualquer um a qualquer função, este é o novo normal.

Discursos de dirigentes que não revelam o menor cuidado na sua preparação, dizendo aleatoriamente frase que venha à cabeça em qualquer situação, mesmo as mais graves: fala-se da vida amorosa de filhos ou apresenta-se argumentos sem o menor nexo, desculpas esfarrapadas e ilógicas, afirmações que contrariam evidências, num despreparo absoluto ou solene  desconsideração para com a dignidade alheia; em meio a um incêndio, com fumaça espalhada em todo o país, somos o país que mais preserva a natureza no mundo! No mundo todo! Porque motivo você ficaria embaraçado?

Quando livros são proscritos, contém “palavras demais”, podendo inclusive sofrer taxação como objeto de luxo, pois caracterizam pessoas que querem aprender ou gostam de estudar, aliens incompreensíveis, existe motivo para sua revolta?

Por favor, só aceite as escolas militares para ensinar a inescapável obediência, única virtude reconhecida, estrita aprendizagem indispensável, as demais são locais de rebeldias, professores são todos esquerdistas doutrinadores – sempre pensamos que, refletindo a sociedade em que se instalam, instituições de ensino tem representantes de todas as linhas de pensamento, diversificados e plurais como convém ao ensino – mas pelo discurso oficial apenas fazem balbúrdia e andam nus pelo corredores.

Sob direção de pessoas incultas, agressivas, criadoras de narrativas esdrúxulas, tenha como ideal acumular muto dinheiro, independentemente do modo: a corrupção está ao alcance de muitos. Neste país em que, infelizmente, as mulheres estão ficando feministas porém as agressões se tornam cada vez mais evidentes e impunes, é o melhor a ser feito.

 

Wanda Camargo – educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil – UniBrasil.  wcmc@mps.com.br