Como programas que incentivam liderança na gestão pública oferecem novas oportunidades para pessoas negras no Brasil

Aumentar a representatividade nos governos têm a potência de quebrar desigualdades, fortalecendo a democracia. Apesar de alguns avanços no que diz respeito às políticas de ações afirmativas nas instituições de ensino e no mercado de trabalho, a questão racial ainda é um dos desafios fundamentais a serem superados para o enfrentamento das desigualdades sociais no país, onde atualmente mais da metade da população (54%) é negra e o racismo estrutural se apresenta das mais diversas formas.

Com o surgimento de programas que capacitam lideranças negras, o acesso às oportunidades profissionais dentro do Governo abriu um novo capítulo e ofertou novas possibilidades para quem já almejava fazer a diferença nas políticas públicas.

Naomy Oliveira sempre foi apaixonada por gestão e educação e é um exemplo de como programas de incentivo à liderança negra no setor público podem abrir novas oportunidades. Formada em Administração de Empresas, com prêmio de excelência e bolsa integral pelo PROUNI, e formação complementar em Gestão Empresarial e Inovação, pela PUC-PR, os últimos quatro anos foram dedicados à maior secretaria de educação do país, na qual ocupa atualmente o cargo de diretora do Departamento de Programas de formação e Educação Continuada (DEPEC), o principal Departamento da Escola de Formação e Aperfeiçoamento dos Profissionais de Educação do Estado de São Paulo, sendo responsável pela formação de mais de 250 mil professores.

“Atuei cinco anos no setor privado, mas queria direcionar o meu trabalho para projetos sociais. Trabalhei em startups de negócios e fui premiada em diversas maratonas de tecnologias e inovação. Mas foi no Programa Trainee de Gestão Pública, do Vetor Brasil, que iniciei o meu trabalho no setor público, sendo alocada na Secretaria da Educação do Estado de São Paulo”, lembra Naomy.

Ainda de acordo com ela, o setor público ainda tem muito o que avançar, formar e engajar lideranças negras, sendo ainda necessário fortalecer a educação e o desenvolvimento de pessoas para que também cheguem a cargos de liderança. “O maior traço de racismo é os líderes negros serem poucos. O impacto do racismo estrutural quando o negro chega em um cargo de liderança já é muito difícil e quando chega tem diversos obstáculos”.

Histórias que se cruzam

A jornada da Naomy se cruza com a da Lara Barreto, que é atual diretora de Parcerias, Operações e Produtos do Vetor Brasil. Ambas iniciaram sua atuação no Governo através de programas sociais. O desejo de trabalhar com algo que impactasse de forma positiva milhões de pessoas, fez com que Lara sentisse vontade em atuar no setor público. Formada também em Administração de Empresas, pela Universidade Federal de Goiás (UFG), ao longo da graduação sempre trabalhou de forma voluntária, em comunidades de Goiânia (GO), sua cidade natal.

Mesmo com uma posição e uma carreira promissora dentro de uma multinacional brasileira, Lara sentia que faltava algo em sua trajetória profissional, “que impactasse mais pessoas”. Após sua saída da organização, trabalhou na Junior Achievement Goiás, por um ano, e após este período resolveu se inscrever também no programa Trainee de Gestão Pública, do Vetor Brasil.

“Participei do primeiro programa de Trainee (em 2015) e foi muito importante. Foi a minha primeira experiência com Governo. Desde então, me apaixonei definitivamente pela gestão pública e por acreditar que o trabalho impacta a vida de milhões de pessoas. Eu saí de Goiânia e fui para São Paulo trabalhar na secretaria do Governo, na unidade de parcerias público privadas, e foi uma experiência muito transformadora. Após esta atuação, retornei a Goiás, por um convite, na secretaria de Planejamento. Após seis meses saí e fui convidada a integrar o Vetor, na qual já atuo há 5 anos”, comenta Lara.

Ubuntu seleciona 40 profissionais públicos negros para mais de 100 horas de formação

Programas de formação de lideranças negras para o setor público são fundamentais para dar visibilidade à trajetória destes profissionais no setor público, além de formá-las para disputar essas posições.

As histórias de Naomy e Lara foram grandes inspirações para o Vetor Brasil. A partir destas e outras lideranças negras que passaram pelos programas da OSC, surgiu o programa Ubuntu – fortalecendo potências no setor público. Com foco em ampliar e consolidar a participação dos negros em posições de poder e influência no setor público, o programa tem o objetivo de selecionar 40 profissionais públicos negros, em todo o Brasil, para participar de mais de 100 horas de formação on-line, com foco em conteúdo de Liderança, Gestão de Pessoas e em Diversidade, Equidade e Inclusão, além de mentorias individuais.

“Ele é muito importante neste momento do Brasil. A gente vive uma sociedade racista, o racismo é estrutural e o racismo institucional que faz com que pessoas negras, que têm as mesmas habilidades que demonstram pessoas brancas, normalmente não são promovidas ou não ocupam cargos de liderança”, afirma Lara Barreto, diretora de Parcerias, Operações e Produtos do Vetor Brasil.

O público-alvo do programa são pessoas negras que estão atuando no executivo do setor público, nas suas primeiras experiências em posições de liderança e que já trabalham gerindo equipes. O início do programa está previsto para o mês de novembro de 2021 e tem expectativa de duração de 12 meses. O Ubuntu também conta com a parceria da República.org, Fundação Tide Setubal e Porticus.

Além do Ubuntu, outra oportunidade para o desenvolvimento é o edital Traços, da Fundação Tide Setubal, destinado à participação de lideranças negras que tenham nascido e/ou vivido em periferias urbanas brasileiras ou contextos periféricos urbanos, com idade entre 21 e 45 anos, que almejam ocupar cargo eletivo nos Poderes Executivo ou Legislativo e pessoas graduadas em Direito, que desejam ingressar na carreira jurídica do setor público, nas funções de juiz, promotor de justiça, defensor público, delegado de polícia ou procurador/advogado público.

“O Edital Traços quer fortalecer e aprimorar competências e habilidades pessoais para revigorar e fortalecer suas atuações sociais, políticas e profissionais, dessa forma contribuir para ampliação da diversidade em espaços de decisão e poder”, afirma Viviane Soranso, coordenadora do programa raça e gênero da Fundação Tide Setubal.

Plano coletivo acelera a busca pela equidade racial nas posições de liderança

A plataforma Alas (Apoio ao Desenvolvimento de Lideranças Negras) é uma iniciativa da Fundação Tide Setubal, que é um pacto coletivo para acelerar a busca pela equidade racial nas posições de liderança, apoiando a formação e a preparação de lideranças negras.

A plataforma é composta por três estratégias: Asas (voltado a jovens entre 16 e 24 anos, que estejam cursando o Ensino Médio ou recém-formados), Elos (jovens estudantes e adultos de origem periférica em busca de cursos de graduação e preparatórios para mestrado, concursos públicos e carreiras jurídicas) e o Edital Traços.

O programa Ubuntu, do Vetor Brasil, está promovendo uma campanha de mobilização coletiva na plataforma Alas, na estratégia Elos, para custear a participação de mais de dez pessoas no projeto. A meta é garantir R$ 413 mil, sendo que 25% do valor já foi arrecadado. Para contribuir, acesse o link https://bit.ly/3lja8og.

Além disso, a plataforma Alas permite doações de recursos de pessoas físicas e jurídicas para o Fundo ou diretamente para uma das iniciativas, por meio do financiamento coletivo Matchfunding. Para cada R$ 1 doado, o fundo Alas investe mais R$ 2 em cada ação, triplicando as doações obtidas.

A iniciativa conta com as seguintes instituições parceiras: Fundação Getulio Vargas, GOYN, Imaginable Futures, Insper, Instituto Ibirapitanga, Instituto Singularidades, Open Society, Porticus América Latina e Vetor Brasil. A plataforma de financiamento coletivo tem parceria com a Benfeitoria e pode ser acessada em www.plataformaalas.org.br.

 

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