sábado, 22 fevereiro 2025
26.5 C
Curitiba

As escolas, escoadouro das nossas mazelas sociais e éticas

*Jacir J. Venturi

O ambiente escolar é um excelente laboratório para a vida adulta de nossas crianças e adolescentes. Entre inúmeras virtudes, a escola desenvolve resiliência às frustrações e propicia a convivência com a diversidade, pois é um espaço de aprendizado e alegria.

Ademais, a escola tem legitimidade e autoridade intelectual e moral para ser um agente de transformação da comunidade na qual está inserida. Desgraçadamente, no entanto, não é isso que ocorre em uma boa parte de nossos estabelecimentos de ensino. Mesmo reconhecida por uma maioria como a “nova riqueza das nações”, a escola, no Brasil, tem sido exacerbadamente o espaço de frequentes agressões físicas e morais, muito acima da média mundial, como bem demonstram estatísticas comparativas internacionais.

Sem forças para reverter uma dura realidade, boa parte de nossas escolas é um escoadouro das mazelas sociais e éticas. Destarte, vivenciam-se a violência física e o bullying, cuja frequência e intensidade indicam o quanto a escola está moralmente comprometida, como decorrência da falta de regras claras e de punição adequada, conflitos mal resolvidos e ausência de uma cultura mais humana no colégio ou em casa.

Os metros quadrados mais nobres de um bairro deveriam ser os da sala de aula e, se o seu entorno não é bom, a escola também é maculada. O quanto o ambiente escolar está vulnerável dentro dos padrões civilizatórios é demonstrado por uma ampla pesquisa nacional, realizada pela Fundação Lehmann, com 260 mil professores de escolas públicas: 51% deles presenciaram agressões físicas ou verbais de alunos contra os docentes; 17% dos professores identificaram alunos sob o efeito de álcool ou drogas; e 6% dos alunos já portaram armas brancas ou de fogo no recinto escolar.

É também oportuno rememorar que o Brasil, com apenas 0,28% da população mundial, é responsável por 10% dos homicídios do planeta, com 62 mil crimes por ano – e metade dessas mortes está na faixa etária dos 15 aos 29 anos. A realidade da escola é, portanto, o reflexo de uma sociedade com uma cultura de violência.

Diante desses números trágicos, de pronto há pessoas que estabelecem uma relação de causa e efeito entre desigualdade social e violência. Há outras justificativas causais mais proeminentes, pois como explicar, sob a ótica do argumento anterior, que a Índia tem, proporcionalmente, a 2ª menor taxa de homicídios do mundo (só perde para a Islândia), enquanto o Brasil ocupa a 7ª posição entre os mais violentos? Em tempo: Índia, com seu sistema de castas, apresenta uma desigualdade social maior que o Brasil e renda per capita equivalente a um quinto da brasileira.

O Prof. Brian Perkins, da Universidade de Columbia, que faz estudos comparativos de violência escolar entre Brasil, Índia, China e África do Sul, é enfático ao afirmar que o Brasil tem um grave problema para melhorar a educação: a segurança. Oportuno, conclui que “é preciso resolver a violência para que haja um ambiente favorável ao estudo. A ciência mostra que o processo de aprendizagem é afetado negativamente por situações de medo”.

Além disso, nos últimos anos temos passado por um agravamento de toda essa problemática, uma vez que o Brasil vivencia a imbricação de três graves crises: econômica, política e, a mais avassaladora delas, a crise moral. E, como professa Aristóteles, “o homem guiado pela ética é o melhor dos animais; quando sem ela, é o pior”.

Assim, quando os valores, virtudes, mérito, dedicação aos estudos e ao trabalho duro são relegados por uma boa parcela de nossos políticos e da população, cabe a pergunta: que força tem a escola para romper os grilhões de violências físicas e morais? Quando o entorno é conflagrado, a agressividade e a intimidação adentram as escolas, senão pelas portas, senão pelas janelas, então pelas frestas. E como estancar essa invasão indesejada e deletéria?

A resposta é complexa, porém no Brasil e pelo mundo há bons resultados, conquanto se adapte esses exemplos bem implementados à sua realidade, pois insucessos existem em transpor modelos. Requer antes de tudo a iniciativa e o comprometimento dos gestores e professores em promover, junto com pais, líderes da comunidade e agentes da Secretaria de Educação, um ambiente com boa rotina escolar: regras claras e bem cumpridas, relatórios mensais das ocorrências, respeito mútuo, equilíbrio entre afeto e disciplina, aulas motivadoras com muita prática e despidas de militâncias ideológicas, etc.

Um bom educador é comprometido com a sua comunidade escolar, pois ele carrega dentro de si a chama esplendorosa do entusiasmo em promover o ser humano nos espectros ético, cognitivo, social e espiritual.

 

*Jacir J. Venturi, coordenador da Universidade Positivo (UP), foi professor e diretor de escolas públicas e privadas.

Destaque da Semana

Aumentar em 30 minutos os treinos de cardio impacta a composição corporal

Estudo mostra como cada meia hora de atividade aeróbica...

Onda de calor: quem tem doença crônica precisa redobrar os cuidados

Pessoas com hipertensão, arritmia, insuficiência cardíaca ou renal devem...

Com impacto emocional, alopecia areata ganha novas opções de tratamento

Sociedade Brasileira de Dermatologia divulgou recomendações atualizadas para aprimorar...

Academia do Coração do Hospital Costantini ultrapassa 350 mil atendimentos

Estima-se que os praticantes da academia caminharam juntos, nos...

Artigos Relacionados

Destaque do Editor

Popular Categories

Mais artigos do autor