A República dos sinceros

Por Wanda Camargo*

O país imerso em mortes e sofrimento causados pela COVID e o titular da República diz que é normal, que todos vão morrer um dia, e mais, afirma que não é coveiro. A constatação de que a morte é inevitável não é nova, novidade é o ocupante do que deveria ser o cargo mais alto do país apelar a este truísmo para fugir da responsabilidade de lamentar os óbitos e manifestar solidariedade com os familiares das vítimas; mas esperar solidariedade do tenente reformado capitão após ser defenestrado do Exército é esperar demais. Até como coveiro, profissão digna e necessária ainda que difícil, ele prestaria melhores serviços à sociedade.

Um seu assessor para assuntos internacionais, chamou o prefeito de Nova York de “toupeira” e seu vice igualmente é versado em gafes: “Sou que nem um paraquedas com Bolsonaro: estou com ele e não abro”.

O atual ocupante do ministério da Educação declara que educação superior não é necessária pois não haverá emprego para os formados, e completa dizendo que portadores de deficiência atrapalham os demais estudantes em sala de aula. Para quem já declarou que a homossexualidade se deve a famílias desajustadas e outras impropriedades, isso soa normal.

O cidadão que se diz ministro da Economia perpetra a afirmação de que preços altos de combustíveis não são um grande problema. Não é preciso ler Milton Friedman “em inglês” como se jacta o otimista, basta um primeiranista de Economia para saber que os preços de combustíveis afetam todos os demais preços. Revoltou-se também com trabalhadoras domésticas tirando férias na Disney, aproveitando o dólar então baixo, já comparou funcionários públicos a “parasitas” ao comentar as reformas administrativas pretendidas pelo governo federal, que lhes dariam reajuste anual de salários e que, segundo ele, já têm como privilégio a estabilidade no emprego e “aposentadoria generosa”. Mas também já criticou o aumento da expectativa de vida, o Fies e a educação pública, além de apontar a livre circulação de maconha nas universidades federais,  que serviriam apenas para ensinar Paulo Freire e “sexo para crianças de cinco anos”. Uma de suas declarações mais aviltantes foi de que não se deveu à pandemia a redução da capacidade de atendimento do setor público, mas sim “o avanço na medicina ” e “o direito à vida”, já que “todo mundo quer viver 100 anos, 120, 130”,  e “não há capacidade de investimento para que o Estado consiga acompanhar” a busca por atendimento médico crescente; talvez espere que os verdadeiros “patriotas” abram mão de suas vidas para o bem do Estado. No entanto, a concorrência é grande com suas afirmações de que, embora os chineses tenham “inventado o vírus”, têm vacina menos eficiente do que as desenvolvidas por laboratórios privados dos Estados Unidos, enquanto com ironia defendia a maior eficiência de empresas privadas sobre o setor público. Quem será que dirige este setor tão ruim?

O presidente da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Camargo, um afrodescendente que não orgulha os demais, chamou o movimento negro de “escória maldita” formada por “vagabundos”, durante uma reunião interna com servidores, além de tentar retirar alguns nomes famosos da lista de personalidades negras homenageadas anteriormente nesta unidade.

O secretário de Cultura do governo, Mário Frias, fez uma declaração racista sobre um historiador e educador em postagem no Twitter, dizendo que ele “precisa de um bom banho”, além de, claro, declarar que o incêndio causado na Cinemateca –  risco alertado pelo Ministério Público Federal dez dias antes do ocorrido, foi culpa de um partido político que já deixou o governo  há vários anos.

Sinceridade sempre foi uma qualidade respeitada, e talvez a coleção de disparates aqui listados – e que absolutamente não esgota o tema, várias outras foram pronunciadas – seja apenas a expressão sincera do que pensam seus emissores; mostrando claramente a falta que faz uma boa formação cidadã.

 

Wanda Camargo – educadora e assessora da presidência do Complexo de Ensino Superior do Brasil – UniBrasil. 

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