Pesquisadores desenvolvem patch para queda capilar capaz de tratar raiz do problema

Patch apresentado em estudo publicado em agosto na revista científica ACS Nano tem microagulhas para entregar profundamente no couro cabeludo nanopartículas de cério, que estimulam a formação de novos vasos e eliminam o estresse oxidativo, acelerando o crescimento de fios mais saudáveis e fortes.

Queda capilar

Afetando homens e mulheres, a alopecia androgenética, popularmente conhecida como calvície, é um dos tipos mais comuns de queda capilar, sendo causada por uma combinação de fatores genéticos e hormonais, principalmente com relação a produção aumentada de di-hidrotestosterona. “Indivíduos com predisposição genética à calvície possuem maior sensibilidade dos receptores hormonais no couro cabeludo, o que, combinado à produção de di-hidrotestosterona, prejudica a circulação na região e, consequentemente, a absorção de nutrientes pelos folículos capilares. O quadro ainda é piorado pela produção de radicais livres na região devido à exposição aos danos ambientais e maus hábitos, o que gera um estado de estresse oxidativo. O resultado é o encolhimento dos folículos capilares com consequente interrupção da produção dos fios de cabelo, que se tornam mais finos, frágeis e propensos à queda”, afirma a dermatologista Dra. Patrícia Mafra, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia. A condição, infelizmente, é crônica, isto é, não possui cura, com os tratamentos disponíveis hoje consistindo em retardar e interromper a evolução do quadro. A questão é que a grande maioria dos medicamentos utilizados para essa finalidade não se concentra nas raízes do problema: o estresse oxidativo e a circulação insuficiente. Mas a boa notícia é que, em um estudo publicado em agosto na revista científica ACS Nano, pesquisadores relataram o desenvolvimento preliminar de um patch de microagulhamento com substâncias específicas para combater as causas primárias da calvície.

O patch desenvolvido pelos pesquisadores tem como principal mecanismo de ação a presença de nanopartículas contendo uma substância conhecida como Cério. “Estudos anteriores já haviam estabelecido que nanopartículas contendo cério possuem a capacidade de imitar enzimas que agem removendo o excesso de espécies reativas de oxigênio, os radicais livres, reduzindo assim o estresse oxidativo. Porém, essas nanopartículas não conseguem atravessar a camada externa da pele”, destaca a dermatologista. No estudo, o objetivo era então projetar uma maneira minimamente invasiva de entregar essas nanopartículas profundamente na pele, alcançando assim as raízes do cabelo, para promover o crescimento dos fios. A solução encontrada pelos pesquisadores foi criar um adesivo solúvel com microagulhas combinando ácido hialurônico, uma substância naturalmente encontrada no organismo, e as nanopartículas de Cério. Esse adesivo foi então testado em ratos com pontos carecas em comparação com um patch de controle, com ambos estimulando a formação de novos vasos sanguíneos ao redor dos folículos capilares e, consequentemente, aumentando o aporte de nutrientes. “Com um maior aporte de nutrientes para as células do couro cabeludo, os cabelos são capazes de crescer mais grossos, fortes, saudáveis e com maior rapidez”, explica a médica. Porém, os ratos tratados com o adesivo contendo as nanopartículas de Cério mostraram mais rapidamente sinais da transição capilar na raiz, incluindo pigmentação da pele e níveis elevados de um composto encontrado apenas no início do desenvolvimento de novos fios.

Além da angiogênese, os ratos submetidos ao tratamento com Cério também apresentaram uma redução nos níveis de estresse oxidativo da pele. “Através de sua capacidade de aliviar o estresse oxidativo e promover, simultaneamente, a formação de novos vasos sanguíneos, o adesivo desenvolvido pelos pesquisadores promoveu uma remodelação do microambiente ao redor dos folículos capilares, criando condições ideais para o desenvolvimento adequado dos fios”, afirma a especialista. Nos testes, os pesquisadores também observaram que o patch contendo as nanopartículas de Cério ainda promoveu crescimento capilar mais rápido que o Minoxidil, com aumento semelhante na cobertura, densidade e diâmetro dos fios, mas com aplicação menos frequente. “A proposta elaborada pelos pesquisadores mostrou-se então uma estratégia promissora para reverter a queda capilar em pacientes com alopecia androgenética. No entanto, vale ressaltar que o desenvolvimento do patch apresentado pelo estudo ainda está em fase preliminar e mais pesquisas são necessárias para garantir sua eficácia e segurança antes que seja submetido para avaliação para uso amplo em humanos”, ressalta a Dra Patrícia.

Outras estratégias – Infelizmente, pode demorar até que um tratamento inovador como esse novo patch passe a ser amplamente utilizado. E o tempo não está do lado dos pacientes que sofrem com cálvicie, já que, quanto mais avançado o quadro, maiores são os danos provocados pela alopecia androgenética aos folículos capilares e menor é a resposta ao tratamento. A boa notícia é que existem muitos tratamentos já disponíveis que, se realizados precocemente, são capazes de retardar e interromper o avanço da condição com resultados expressivos. Por isso, o mais importante ao notar os primeiros da calvície é buscar um especialista o quanto antes. “A preocupação com a queda capilar deve surgir quando o número de fios caindo por dia for maior que 100, se o volume capilar diminuir acentuadamente ou se começarem a surgir falhas”, recomendo a dermatologista.

Após o diagnóstico, o médico poderá recomendar o tratamento mais adequado para o seu caso. Em casa, por exemplo, o tratamento pode ser realizado através da suplementação de vitaminas e antioxidantes orais, do uso de LED’s e da aplicação tópica medicamentos, como o famoso Minoxidil. “Podendo ser utilizado topicamente ou em conjunto com procedimentos como o microagulhamento, que abre canais para aumentar a absorção da substância pela pele, o Minoxidil age aumentando a circulação sanguínea do couro cabeludo e melhorando a oxigenação da região, o que prolonga a fase de crescimento dos fios, que também nascem mais fortes e saudáveis”, explica a médica.

Até a dieta entra para ajudar. “Nossa dieta e hábitos diários modulam a expressão de genes que podem afetar o crescimento dos fios. Por exemplo, a baixa expressão do gene CYP19A1, identificada por meio de um exame de genotipagem, pode levar a um acúmulo maior de DHT (di-hidrotestosterona), o que favorece a miniaturização e queda dos fios. Sabendo disso, é possível modular a expressão desse gene com suplementação, medicamentos e tratamentos tópicos”, explica o geneticista Dr. Marcelo Sady, Pós-Doutor em Genética e diretor geral Multigene.

Segundo a especialista, os procedimentos em consultório também são muito bem-vindos no tratamento da queda capilar, pois potencializam os resultados do tratamento. “A mesoterapia, os lasers, o microagulhamento e o MMP Capilar são algumas opções de procedimentos que podem ser indicados de acordo com a causa da queda capilar para o tratamento do problema”, destaca a Dra Patrícia Mafra. Mas a dermatologista ressalta que o estilo de vida também tem grande impacto na calvície. Por isso, o tratamento deve ser necessariamente acompanhado de mudanças nos hábitos diários. “Por isso, adote uma alimentação balanceada, pratique exercícios regularmente, controle o estresse, descanse e evite hábitos prejudiciais como o tabagismo e o abuso das bebidas alcóolicas”, finaliza.

FONTES: *DRA. PATRÍCIA MAFRA – Dermatologista, membro titular da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD). Graduada em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais (FCM-MG), com estágio em Dermatologia pelo Grupo Santa Casa e acompanhamento do Serviço de Ginecologia e Sexologia do Hospital Mater Dei, Dra. Patrícia Mafra é expert em injetáveis e speaker em eventos nacionais e internacionais, palestrando sobre temas ligados à área de atuação. A dermatologista também foi preceptora de Medicina Estética do Instituto Superior de Medicina (ISMD). https://patriciamafra.com.br/

*DR. MARCELO SADY: Pós-doutor em genética com foco em genética toxicológica e humana pela UNESP- Botucatu, o Dr. Marcelo Sady possui mais de 20 anos de experiência na área. Speaker, diretor Geral e Consultor Científico da Multigene, empresa especializada em análise genética e exames de genotipagem, o especialista é professor, orientador e palestrante. Autor de diversos artigos e trabalhos científicos publicados em periódicos especializados, o Dr. Marcelo Sady fez parte do Grupo de Pesquisa Toxigenômica e Nutrigenômica da FMB – Botucatu, além de coordenar e ministrar 19 cursos da Multigene nas áreas de genética toxicológica, genômica, biologia molecular, farmacogenômica e nutrigenômica.

 

ESTUDO: https://pubs.acs.org/doi/pdf/10.1021/acsnano.1c05272

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